A ideologia do pudor – “História da sexualidade” na Revista Veja

Diogo Schelp

A opressão sexual no Oriente Médio é, em parte, uma invenção recente. Durante séculos, o prazer feminino e a homossexualidade foram tabus no Ocidente, mas não no Islã

historia_sexualidade A iraniana Sakineh Mohammadi Ashtiani, de 42 anos, foi condenada a uma morte cruel. Acusada de adultério, Sakineh será enterrada viva até o pescoço e sua cabeça oferecida como alvo de pedras jogadas por seus carrascos. O caso ganhou repercussão internacional, mas, na semana passada, o governo do Irã confirmou a sentença. “Esse é um castigo medieval que não deveria ter mais lugar no mundo moderno”, disse William Hague, ministro de Relações Exteriores da Inglaterra. Ele está certo em não tolerar as leis sexuais repressivas e abomináveis existentes no Irã e em outros países. Engana-se parcialmente, no entanto, em classificá-las como uma herança antiga do islamismo. O Islã já foi menos opressor em matéria de sexo, como mostra História da Sexualidade (Contexto; 288 páginas; 47 reais), do americano Peter Stearns, recém-chegado às livrarias.

O livro descreve as mudanças nos costumes sexuais da pré-história aos dias de hoje. Surpreende como uma mesma sociedade podia lidar com a questão ora com maior, ora com menor liberalidade. Relações fora do casamento, homossexualidade ou masturbação. por exemplo, eram aceitas numa determinada fase histórica e reprimidas na seguinte. Isso aconteceu tanto nas civilizações ocidentais quanto nas do Oriente Médio e da Ásia. Em algumas situações, a imposição de novas restrições sexuais era usada para reforçar uma identidade religiosa ou uma ideologia. A União Soviética de Josef Stalin reprovava doutrinariamente o prazer sexual sem fins reprodutivos, descrito como uma atitude individualista e, portanto, contrarrevolucionária. Em outros contextos, as novas normas eram simplesmente uma reação da elite a mudanças no comportamento da maioria da população. Um exemplo disso é o pudor exacerbado na Inglaterra vitoriana (1837-1901) como reação ao relaxamento dos costumes, produto do processo de urbanização trazido pela revolução Industrial. Ao sexo antes do casamento, à prostituição e à arte erótica florescente, os códigos vitorianos contrapuseram a moral rígida.

O atual conservadorismo sexual no mundo islâmico é parte ideologia, parte reação a mudanças sociais. No primeiro caso, trata-se de uma tentativa de marcar uma identidade cultural claramente oposta à dos países ocidentais. Esse esforço inclui a insistência de muitos imigrantes muçulmanos na Europa em obrigar suas mulheres a cobrir a cabeça e o rosto, o que fez com que o Parlamento francês aprovasse uma lei, na semana passada, proibindo o uso da burca em locais públicos. As regras opressoras no Islã também são uma reação a comportamentos sexuais que, por influência do Ocidente, já fazem parte da vida privada dos muçulmanos. Isso abrange o sexo casual. o consumo de pornografia e o uso, pelas mulheres. de roupas sensuais – devidamente complementadas por um véu na cabeça ou escondidas sob panos pretos. Os fundamentalistas procuram combater o fascínio pelas conquistas sexuais do Ocidente classificando-as como depravações e provas de decadência. Curiosamente, no passado ocorria o inverso. Divididos entre a atração e a repulsa, os europeus da era vitoriana espalhavam histórias sobre a suposta devassidão das mulheres muçulmanas e sobre posições sexuais exóticas praticadas no Oriente Médio.

As lendas sobre o sexo no mundo islâmico tinham sua razão de ser. Ao contrário do que acontecia na Europa, no Islã as mulheres eram incentivadas a investir no próprio prazer, desde que no âmbito do casamento. O sexo não tinha como única finalidade fazer filhos e o controle de natalidade era aceito. O adultério sempre foi considerado um crime grave desde o princípio da religião islâmica, no século VII. O castigo para pecadores e pecadoras era oferecer o dorso nu a 100 chibatadas – suplício bárbaro ao qual alguns não sobreviviam. A lapidação, a morte a pedradas, chegou a ser adotada esporadicamente durante o Império Otomano (1299-1922), mas foi apenas nos últimos sessenta anos que ela se tornou regra em países como Irã, Somália, Indonésia, Nigéria e Sudão. Até o fim do século XIX, as relações homossexuais também eram na maioria das vezes toleradas no Islã. Esperava-se que homens mais velhos fizessem a iniciação sexual dos rapazes nos moldes habituais da Grécia clássica, cujos costumes tiveram influência sobre os árabes e persas de 500 a.C. a 200 a.C. Entre as recompensas prometidas pelo paraíso islâmico, fantasiaram alguns autores árabes medievais, estavam não apenas inúmeras virgens, como as carícias dos ghilmaan, rapazes “brancos como pérolas”. São inúmeros os registros históricos, entre os séculos IX e XI. de travestis vendendo sexo proibido nas ruas das cidades árabes. Aos olhos da religião islâmica, o sexo anal sempre foi considerado pecado, mas por muitos séculos isso não se traduziu em crime punível. Em contraste com a tradição, no Irã atual, a homossexualidade é punida com a forca. Na arábia Saudita, os homens de comportamento desviante podem ser condenados à morte por decapitação ou apedrejamento. “A homossexualidade só começou a ser reprimida pelos muçulmanos no início do século XX, justamente porque eles não queriam parecer imorais aos olhos do Ocidente puritano, com o qual passaram a ter contato intenso sob o domínio do imperialismo europeu”, diz Peter Stearns.

O autor de História da Sexualidade diz ser irônico – e também trágico que nos últimos 100 anos os padrões sexuais do Ocidente tenham avançado rapidamente, enquanto no mundo islâmico eles se tornaram mais retrógrados. Stearns atribui a dois fatores essa rápida liberação sexual nos países ocidentais. O primeiro é a popularização do controle de natalidade. Por motivos econômicos, as famílias começaram a reduzir o número de filhos. Os métodos anticoncepcionais  também melhoraram, permitindo que as pessoas fizessem sexo sem se preocupar com uma possível gravidez. O segundo fator foi a crescente exposição pública da sexualidade – nas artes, na moda, nos meios de comunicação e na vida social. Como resultado, o sexo prazeroso tornou-se mais valorizado do que o sexo apenas para reprodução. Isso ajudou a liberar as mulheres do papel exclusivamente materno que lhes era reservado. O medo de perder o controle sobre as mulheres é o principal motivo pelo qual em muitos países muçulmanos os comportamentos do Ocidente são demonizados. É falso, porém, o argumento de que esse conservadorismo tem raízes na tradição cultural islâmica.

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Revista Veja – 17/07/2010

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