“O poder acabou mandando no PT” – José de Souza Martins

Entrevista para Gustavo T. de Miranda, para o jornal A Tribuna

O Partido dos Trabalhadores (PT) deixou-se envolver pela estrutura do poder. Essa é a conclusão do sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Universidade de São Paulo. Recentemente, ele lançou o livro Do PT das Lutas Sociais ao PT do Poder, pela Editora Contexto, em que analisa os 13 anos da agremiação à frente do Governo Federal. O intelectual foi monitorando o partido que se afastava dos compromissos de nascimento até chegar ao momento atual, quando a força política está no centro de um dos maiores escândalos da República. Autor de diversos livros, Martins também pesquisa um ritual de loucura coletiva espantosamente comum no Brasil: os linchamentos. Para ele, o Brasil é o país que mais lincha no mundo. Até 2013, havia quatro linchamentos ou tentativas por semana. Hoje, esta média alcança um por dia. “O brasileiro não é a doçura que se propaga. Somos um povo violento, intolerante e preconceituoso”, crê.

martinsNo seu livro, o senhor diz que cidadão do subúrbio tem papel político. Explique.
O subúrbio foi um protagonista importante na eleição presidencial de 2002. Tanto Lula quanto José Serra são originários de áreas suburbanas da metrópole. Desde então, a sociedade brasileira mudou muito, até pela própria ação do PT no poder. O velho operário de manual de ciência política quase desapareceu. Ocupou-lhe o lugar o trabalhador de classe média, marcado pelos valores da sociedade de consumo e pelas aspirações de ascensão social, mais para a direita do que para a esquerda. Tanto nas manifestações contra Dilma, quanto nas manifestações a favor dela, foi esse o protagonista.

Qual o Lula que emerge dessas investigações atuais?
Lula encarna o que resta do ABC operário, transfigurado pela experiência do poder, ainda que seu discurso político tenha ficado lá atrás, na porta da fábrica. Ele nunca negou a justa e compreensível aspiração de ascensão social, de morar bem, de vestir-se bem, de comer bem, valores referenciais da cultura operária suburbana. Algo que causa um certo horror aos grupos de base, especialmente aos influenciados pela Igreja, os que fizeram a opção preferencial pelos pobres e que entendiam que ao fundar um Partido dos Trabalhadores estavam fundando um partido dos pobres.

O pior erro (do PT) foi ter optado por romper com a continuidade e enveredar por uma linha própria de cooptação dos frágeis e simples para se manter no poder a qualquer preço.

Lula e Maluf são políticos populistas. Eles deixam herdeiros?
Cada um é populista a seu modo. Lula é bem diferente de Maluf. A gênese de um líder populista é muito lenta. Líderes populistas não deixam herdeiros, pois absorvem em si mesmos toda a energia política da ação populista. Não vejo nenhum populista na linha do horizonte. Há vários
demagogos, mas não necessariamente líderes populistas. Por outro lado, na história do Brasil os quartéis nunca geraram um líder populista.

O senhor relaciona o sucesso político de Lula à atuação da Igreja Católica. Explique.
Não me refiro a sucesso político, mas à gestação imaginária do que Lula viria a ser. Uma parte ponderável dos grupos constitutivos do PT vem dos grupos de base da Igreja Católica, de modo geral identificados com a Teologia da Libertação. Foram esses grupos de base que asseguraram, primeiramente, a disseminação do sindicalismo rural e da CUT (Central Única dos Trabalhadores) até em regiões remotas do Brasil e, na sua esteira, a disseminação do próprio PT.

do-PT-do-poderO que diferencia Lula de Dilma Rousseff? A explicação é a habilidade política?
Lula é político, vem da ação de base no sindicalismo e da mesa de negociação das relações de trabalho. Dilma não é política, é mais uma tecnocrata, nasceu mais para mandar do que para negociar, e negociar é essencial em política.

Qual foi o maior acerto dos governos petistas nestes 13 anos? E o pior erro?
O maior acerto foi o partido ter conseguido ficar no poder nestes 13 anos de Presidência. Outro acerto foi, ao menos nos primeiros anos do governo Lula, ter perfilado as orientações do governo de Fernando Henrique Cardoso. O pior erro foi ter optado por romper com essa linha de continuidade e enveredar por uma linha própria de cooptação dos frágeis e simples para se manter no poder a qualquer preço.

Qual o País que emerge desses 13 anos de PT no poder?
O PT dividiu o Brasil e dividiu o povo brasileiro na equivocada concepção de um país polarizado entre o Brasil petista dos pobres e o Brasil dos ricos e das oposições. É pouco provável que surja um novo líder populista e messiânico capaz de remendar o que o messias envelhecido e fatigado fragmentou.

Sérgio Moro não representa um pouco o Messias?
Nem o juiz Sergio Moro nem o ministro Joaquim Barbosa poderão se tornar novos messias. Nem pretendem isso, ao que tudo indica. A relevância que o Judiciário vem tendo decorre do fato de que se trata do último poder da República imune à desmoralização do Executivo e do Legislativo. É o que nos resta.

Como o senhor sintetiza a diferença entre o PT das lutas sociais e o PT do poder?
Meu livro, que disso trata, foi escrito em pequenos artigos analíticos de jornal e em entrevistas ao longo dos 13 anos do PT no poder. Fui monitorando o partido que se afastava dos compromissos de nascimento, os compromissos rompidos com várias iniciativas pré-eleitorais de 2002, as principais das quais são a Carta ao Povo Brasileiro e o entendimento com os militares na validação petista da política econômica da ditadura. Nesse momento ficou claro que o PT se comprometia a ser, no governo, um partido bem diverso do que era, até então, o partido das lutas sociais. O poder acabou mandando no PT.

Os capítulos do livro têm fortes imagens: “O futuro visto no passado”, “A arca de Noé no Lago Paranoá”, “Entre o rosário e o caviar”. O senhor, de alguma maneira, vive a decepção com o PT?
Minhas emoções ficam entre parênteses. Já em 2002 era claro que para chegar ao poder o PT estava disposto a virar as costas para suas bases e oferecer-lhes, no lugar dos compromissos de origem, um reformismo tópico e superficial, como o da bolsa família no lugar da intensificação da reforma agrária. O capítulo sobre “A arca de Noé no Lago Paranoá” é uma fábula sociológica sobre a perdição do poder. Quando as águas do poder baixam e a arca pousa calmamente em solo seguro, Noé e seus auxiliares mais imediatos não sabem se já chegaram ao porto de destino ou se nunca saíram do porto de saída. É uma antecipação sociológica do que esperava o governo do PT.

O Brasil está entre os países que mais lincham no mundo. Como explica esse ritual de loucura coletiva?
Esse é um tema que analiso em meu livro Linchamentos – A justiça popular no Brasil (Contexto, 2015) e nele mostro os fatores do recrudescimento de práticas punitivas em desacordo e em desrespeito com o que preconiza a Justiça formal e oficial. São vários os fatores que concorrem para a disseminação dessa prática, mas principalmente insegurança e medo, que vem crescendo no País.

Discute-se maior punição para crimes contra honra praticados pela internet. Fabiane Maria de Jesus, dona de casa morta em 2014 em Guarujá, pode dar nome a uma lei. Estamos caminhando na direção da civilidade?
Fabiane, uma mãe de família, não foi vítima de crime contra a honra praticado pela internet. A tragédia de Fabiane foi consequência de ignorância dos que a lincharam, gente influenciável por boatos, tanto os difundidos pela internet quanto os difundidos nos cochichos de vizinhança. O boato que matou Fabiane não foi crime contra a honra, foi fruto de ignorância e burrice, num país em que pessoas despreparadas têm acesso a uma tecnologia sofisticada de fácil manejo, como o computador.

A atualidade coloca em evidência o “brasileiro linchador” da nossa sociedade?
O Brasil é o país que mais lincha no mundo e o número de ocorrências vem aumentando. Até 2013 eram quatro linchamentos ou tentativas por semana. Hoje a média é de um por dia. O brasileiro não é a doçura que se propaga. Somos um povo violento, intolerante e preconceituoso, o que expressa a falta de uma educação humanística e libertadora. A escola fracassou na missão da educação respeitosa e democrática.

 

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