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A História do Século XX Pelas Descobertas da Medicina

 

A História do Século XX Pelas Descobertas da Medicina

Corria o ano de 1900, o século XIX se encerrava. A humanidade fechava o balanço daquele século das máquinas. Nunca a ciência avançara tanto em tão pouco tempo. O carvão desenterrado das sepulturas carboníferas inundava as fábricas para produção de aço: 28 milhões de toneladas produzidas apenas em 1900.1 Transatlânticos salpicavam os oceanos e aposentavam as embarcações a vela. O vapor gerado pela queima do carvão girava suas gigantescas hélices propulsoras incrementando a velocidade pelas avenidas oceânicas. As viagens conectavam Europa e América em menos de uma semana. As rotas marítimas globalizavam o planeta com carregamentos de alimentos, artigos de luxo, manufaturados e matérias-primas. No solo, as linhas ferroviárias se estendiam ao interior das nações, e as locomotivas multiplicavam os rastros de fumaça na paisagem.

Cabos telegráficos encurtavam a distância entre as cidades para alavancar as negociações comerciais e a transmissão das informações. Esses cabos, protegidos por carapaças de borracha, eram assentados no fundo dos oceanos. As mensagens partiam da Indonésia, seguiam à costa asiática, continuavam ao Oriente Médio e à Europa, para então serem retransmitidas à América.2 As notícias deixavam Londres e chegavam a Nova York em três minutos pelo telégrafo submarino, e à Índia em trinta minutos.3 Nos grandes centros urbanos, galpões repletos de prensas cilíndricas cuspiam edições diárias dos jornais com novidades recém-chegadas. Nas cidades norte-americanas, ultrapassavam 100 mil exemplares por dia.4

livro_medicinaO crescimento urbano acompanhava o dinamismo planetário. Mais de um décimo da população mundial já vivia nas cidades.5 A migração urbana incrementada no século XIX insuflou os grandes centros urbanos, que, pela primeira vez, acomodavam mais de um milhão de habitantes. Londres, Paris, Berlim e Viena lideravam os números no continente europeu, ao passo que Nova York, Chicago e Filadélfia dominavam a dianteira da América.

O coração econômico urbano borbulhava. Cavalheiros desciam de charretes, com seus chapéus-coco, enquanto desviavam das fezes de animais próximas à calçada. Outros atravessavam as ruas por entre carroças puxadas pelo trote dos cavalos e abarrotadas com sacas, barris e caixas que abasteciam, com alimentos e bebidas, os mercados das frenéticas cidades. As que transportavam frutas e legumes deixavam rastros de vegetais no calçamento: uma pasta verde escorregadia amassada por rodas e patas equinas.

Frutas à venda derramadas em plataformas de madeira ladeavam as calçadas fervilhantes. Hotéis, bares e restaurantes absorviam e expeliam o intenso fluxo humano. Chapéus pretos e cinza se misturavam com os chapéus coloridos de damas perfumadas em vestidos inflados pelas armações ocultas abaixo da cintura. Crianças disputavam o espaço entre o populacho para vender jornais e fósforos. Muitas caminhavam apressadas, trajando camisas encardidas e calções desbotados, ao trabalho nas fábricas insalubres.

Casas luxuosas e amplas dominavam os bairros nobres, enquanto cortiços e casebres se avolumavam nos pobres. Os redutos industriais cuspiam fumaça negra, enquanto os parques acolhiam a população nos feriados. Os trilhos urbanos recebiam bondes elétricos em algumas cidades, enquanto outras ainda dependiam de cavalos para tração do transporte. A eletricidade derrotava os gasômetros urbanos. A luz elétrica nos libertou da dependência solar. Agora, era possível ler e trabalhar à noite. Alguns automóveis circulavam ainda tímidos. Construções subterrâneas se alastravam para direcionar o crescente esgoto humano, ao mesmo tempo que outras obras no subsolo alongavam ou inauguravam linhas de metrô. As linhas telefônicas ampliavam sua malha urbana.

Apesar disso, todo esse avanço tecnológico contrastava com a vida difícil nas cidades. A Medicina ainda estava aquém da necessidade. Nos Estados Unidos, quase uma em cada 100 mulheres não sobrevivia às complicações do parto. A gestação era uma loteria. Uma em cada dez crianças não chegava a completar 1 ano de vida, e, em algumas cidades norte-americanas, essa taxa de mortalidade infantil chegava a um terço.6 As crianças eram levadas por diarreia, pneumonia, tuberculose e frequentes epidemias de sarampo, varíola, escarlatina, coqueluche e difteria. Vacina? Só contra a varíola. Os adultos morriam cedo: a expectativa de vida era de 47 anos.7 A paisagem urbana de 1900 expunha raros idosos. Remédios caseiros não bastavam, assim como elixires, emulsões e xaropes com promessas milagrosas contra gripe, tuberculose, desânimo, pneumonia, fraqueza e muitos outros males. Farmacêuticos tentavam proporcionar alívio à população com suas diversificadas substâncias esfareladas pelos pilões nas cubas de porcelana. No entanto, pouco ajudavam. A recém-descoberta aspirina aliviava febre e dores, mas não agia no cerne das doenças. A Medicina pouco acompanhava o avanço tecnológico.

Porém, o século XX se iniciou, e, com ele, descobertas médicas mudaram esse cenário. Muitas foram fundamentais à melhoria da saúde. Este livro as descreve, incluindo as realizadas em épocas distantes dos avanços tecnológicos atuais, quando médicos e cientistas lançavam mão de criatividade, coragem e raciocínio lógico para torná-las possíveis. Muitas hipóteses se confirmaram através de experimentos desumanos e antiéticos aos olhos da ciência atual. Aliado a isso, diversos avanços emergiram de testes com resultados falhos que, por obra do acaso e da sorte, apontaram para outras descobertas inesperadas. Essa novela médica, em que a mente humana foi uma das únicas ferramentas disponíveis, é contada em paralelo aos principais acontecimentos do século XX. Duas histórias inseparáveis, pois, em diversos momentos os fatos históricos precipitaram as descobertas médicas, que, por sua vez, também influenciaram os rumos desse período. Ambas as histórias se uniram para consolidar o alicerce da nossa saúde atual.

O capítulo inicial parte da primeira grande descoberta do século XX: a comprovação de que mosquitos transmitiam a malária e a febre amarela. Descoberta fundamental para o fim dessas epidemias urbanas. Na época, ambas eclodiam em cidades europeias, americanas (inclusive dos Estados Unidos) e chinesas, além das tropicais. Devemos essa revelação, anunciada no primeiro ano do século XX, aos voluntários humanos propositalmente infectados pelo vírus da febre amarela. À época não se discutia consentimento humano às experiências, proibição do homem como cobaia e, nem mesmo, direitos humanos. Isso tornava rotineiros os experimentos em cadeias e instituições para crianças deficientes.

Os capítulos seguintes seguem a ordem cronológica dos avanços médicos que levaram a humanidade um degrau acima rumo à saúde ideal. Novas vacinas floresceram na década de 1920. As crianças as recebiam contra tuberculose, difteria, coqueluche e tétano. Anos depois, viriam aquelas em combate à poliomielite e o sarampo. Controlavam-se as epidemias e reduzia-se a mortalidade infantil. Mas isso custou caro. Acidentes com vacinas e infecções inesperadas rechearam as etapas iniciais dessas descobertas. Os primeiros vacinados não suportaram as versões iniciais das vacinas e, com isso, se tornaram mártires anônimos para alcançarmos a saúde atual dos nossos filhos. Agradecemos também aos pesquisadores que morreram infectados na busca vacinal.

Os antibióticos, ocultos na natureza por milênios, foram observados pelos olhos aguçados dos cientistas da década de 1930. Não por acaso, o número de mortes despencou após esses anos. Suas descobertas contêm histórias heroicas e criativas mescladas com experimentos criminosos em locais inesperados. Cobaias humanas forneceram os meios para liquidar a sífilis. Após a Segunda Guerra Mundial foi encontrada a cura da tuberculose. Porém, pesquisadores precisaram elaborar experimentos estratégicos para convencer a relutante comunidade científica sobre a eficácia das novas drogas. A tuberculose foi vencida à custa de erros e acertos que levaram vidas humanas.

As mulheres se beneficiaram dos avanços. Graças à insistência e à obsessão de um médico, foi comprovada a utilidade do exame de Papanicolaou, que, por sua vez, nasceu de uma observação inesperada. Uma sequência de experimentos em animais e vegetais trouxe a descoberta da pílula anticoncepcional, testada na população de um país subdesenvolvido para fugir do preconceito social norte-americano contra a contracepção. E, por esse mesmo motivo, foi lançada no mercado por meio de artifícios para despistar sua verdadeira função. As mulheres ganharam o direito de optar ou não pela gestação. Agora, sobreviviam ao parto, realizavam exames rotineiros para a prevenção do câncer e controlavam a natalidade. Aquelas com dificuldade de engravidar também foram agraciadas por experimentos árduos em diversos campos da ciência que, reunidos de maneira estratégica, culminaram com o nascimento do primeiro “bebê de proveta”.

A industrialização do século XX trouxe crianças fracas e doentes. A ciência lutou para comprovar que elementos radioativos em produtos industrializados minavam a saúde infantil. Enquanto isso, crianças e adolescentes morriam por causa da radioatividade. A criatividade e a estratégia empregadas por médicos comprovaram a impregnação de chumbo no cérebro infantil e sua consequência. A humanidade ganhou argumentos médicos para lutar contra grandes empresas que intoxicavam o mundo com esse metal. O raquitismo foi vencido pela realização de estudos com resultados inesperados, porém interpretados por olhos perspicazes, que descobriram sua causa graças aos efeitos da Primeira Guerra Mundial.

Descrevemos os principais avanços médicos que incrementaram a expectativa de vida. Cientistas levaram décadas para comprovar o malefício do colesterol, porque perseguiam pistas falsas. Foram induzidos ao erro em diversas oportunidades. Até que, com experimentos impensáveis, conseguiram incriminar essa gordura sanguínea como uma das responsáveis pelo infarto. As cirurgias se tornaram seguras com descobertas surpreendentes vindas por obra do acaso. Após um século de buscas, a causa do diabetes foi elucidada. A obtenção da insulina se deveu à obstinação de um pesquisador. Experimentos criativos conseguiram comprovar os efeitos maléficos do tabaco. As transfusões sanguíneas também se tornaram seguras graças a descobertas feitas ao acaso. Médicos trilharam caminhos errados para a melhoria dos bancos de sangue até a sorte reconduzir suas pesquisas ao rumo certo. Experimentos audaciosos e corajosos desafiaram as regras da comunidade médica para comprovar melhores resultados contra o câncer. Os pesquisadores abriram as portas para novas pesquisas. Diferentes áreas científicas se somaram para o nascimento dos exames de imagem do corpo humano: radiografia, ultrassonografia, tomografia computadorizada e ressonância nuclear magnética. A sobrevida humana se elevava, enquanto as taxas de mortalidade despencavam.

De repente, o número de mortes da população jovem voltou a se elevar na década de 1980. Surgiu a epidemia de aids, e, na sua carona, o retorno da tuberculose. Os primeiros doentes revelaram apenas a ponta de um iceberg que se arrastava oculto durante o século XX em rota de colisão com a humanidade. A doença colocou à prova os avanços tecnológicos, e os cientistas não decepcionaram no teste: em tempo recorde, lançaram novas drogas, definiram esquemas de tratamento e métodos de monitoramento da doença. A primeira droga eficaz, o AZT, estava guardada nas prateleiras dos laboratórios havia décadas e foi redescoberta de maneira surpreendente. A aids acirrou o preconceito e dizimou parte da população homossexual, mas foi controlada. Muitos não sobreviveram no aguardo dessa corrida científica contra o tempo.

No início do século XX, descobriu-se, por observações surpreendentes em uma mosca, que os cromossomos albergavam os genes humanos. Hoje, a ciência esmiúça as bases moleculares do DNA para prever o aparecimento de doenças e cânceres, para direcionar a descoberta de novos medicamentos contra doenças antigas e para escolher melhores opções de tratamento. Talvez estejamos testemunhando o nascimento de uma nova era que, no futuro, venha a se chamar “século da genética”.

(Introdução do livro A História do Século XX Pelas Descobertas da Medicina)