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As Abolições da Escravatura no Brasil e no mundo

Este livro não busca apresentar uma nova História do tráfico negreiro ou da escravidão colonial. Com efeito, esses dois aspectos de uma mesma história trágica dispõem de uma abundante literatura, renovada nos últimos vinte anos na França e mais ainda nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha. De um lado, encontram-se obras científicas e, de outro, inúmeras publicações destinadas ao público escolar e universitário, sem contar as múltiplas produções para cinema ou para televisão, que apresentaram várias dimensões dessa história, quase sempre nos Estados Unidos, mas também nas Antilhas francesas.

Em contrapartida, os processos que levaram ao “fim da escravidão” são muito menos conhecidos e frequentemente relegados ao final das obras consagradas à escravidão em si. No entanto, o desfecho da escravidão colonial foi um processo longo, complexo e conflituoso, que merece uma atenção especial. Os diferentes modos de fim da escravidão, impostos como uma nova forma de trabalho generalizado em grande parte das colônias do “Novo Mundo”, originaram sociedades pós-escravagistas de naturezas diferentes.

De fato, o “século das abolições” (1793-1888) produziu sociedades com características contrastantes. As sociedades caribenhas são bem diferentes daquelas do “Velho Sul”* dos Estados Unidos, que, por sua vez, diferem das sociedades afro-brasileiras. Para compreender o caso particular do Haiti, deve-se considerar o caráter único do processo de abolição da escravatura na outrora denominada colônia de São Domingos, a “Pérola das Antilhas”. Talvez os contrastes sejam mais marcantes ainda nas sociedades insulares do oceano Índico, mesmo que igualmente construídas a partir de uma escravidão colonial oriunda do tráfico negreiro.

A síntese aqui proposta busca apresentar com o máximo de clareza os debates e os combates que acabaram impondo o fim dessa escravidão específica que marcou, por mais de quatro séculos, as colônias das principais potências europeias.

Não abordaremos as outras formas que a escravidão assumiu nas sociedades atuais. Certamente estas são tão violentas quanto aquelas e negam os direitos humanos do mesmo modo que o fizeram o tráfico negreiro e a escravidão dos séculos XVI a XIX, mas não dizem respeito à história das práticas coloniais que povoaram as colônias das Américas e do oceano Índico, enquanto despovoavam uma boa parte da África.


Marcel Dorigny é historiador e atua no Departamento de História da Universidade Paris-VIII. É membro do Comité pour la Mémoire de l’Esclavage, diretor da revista Dix-huitième Siècle e presidente da Association pour l’Étude de la Colonisation Européenne (1750-1850). Escreveu diversos livros sobre abolição e escravatura.