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Adriana Carranca | Correspondente de Guerra

Este é um dos perfis escritos por Diogo Schelp no livro “Correspondente de Guerra“, publicado pela Editora Contexto.

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guerra-3dDepois de sete anos trabalhando no caderno Metrópole do jornal O Estado de S. Paulo, para o qual fez reportagens sobre criminalidade juvenil e rebeliões em presídios, Adriana Carranca mudou-se para Londres para um mestrado. Lá, fez amizade com mulheres de diferentes nacionalidades, entre as quais uma egípcia que a convidou para ir ao seu país para dar opinião sobre os três pretendentes a noivo que a família havia escolhido para ela. “Além de mim, que sou católica de nascimento e não sigo religião alguma, viajaram uma amiga judia e uma filipina protestante”, conta Adriana. Em Londres, ela nunca havia parado para pensar que as quatro amigas (incluindo a egípcia, muçulmana) eram de religiões diferentes. Isso nunca havia sido relevante. “No Egito, por causa de toda a história da tradição matrimonial, essas questões vieram à tona, e eu concluí que na base da sociedade as diferenças religiosas são desimportantes. Elas só são realçadas pela política, como instrumento de opressão.” O resultado da viagem, para a amiga egípcia, foi que ela decidiu não se casar com nenhum dos três pretendentes. Mais tarde, em Londres, conheceu numa casa de samba um muçulmano de quem depois ficou noiva e com quem se casou. Para Adriana, a viagem ao Egito abriu uma nova janela de interesse jornalístico. Quando voltou para o Brasil e para a redação do Estadão, o tema social, da humanidade que há por trás dos véus culturais, acabou se tornando a tônica de suas reportagens internacionais. Ela esteve no Afeganistão (em 2008, 2009, 2011 e 2012), na Faixa de Gaza (em 2010), no Paquistão (em 2011 e 2012), na Indonésia (2012), onde entrevistou integrantes do grupo terrorista Jemaah Islamiyah, que haviam acabado de ser libertados após dez anos presos pela morte de 202 pessoas no atentado de Bali em 2002. Também esteve na República Democrática do Congo (em 2013) – para acompanhar o trabalho do general Carlos Alberto dos Santos Cruz, o militar brasileiro que naquele ano assumiu o comando da força de paz da ONU no país –, em Uganda e no Sudão do Sul (em 2014) em guerra civil e na Síria (em 2015).

Adriana não costuma viajar com fotógrafos, mas sentiu falta de ter um lhe acompanhando no Congo. Ela viajou com uma equipe da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF), o que lhe permitiu ir a lugares aonde quase nenhum jornalista vai.

Estive em um vilarejo que tinha acabado de ser atacado, e vi meninos-soldados, fortemente armados, com os rostos marcados pela guerra. Foi a cena mais impactante que eu já vi”, diz Adriana.

Ela costuma tirar as próprias fotos, mas naquele contexto não se sentiu à vontade para fazê-lo. “Eu me identificava como jornalista para todos os entrevistados, mas não podia fotografar rebeldes à distância, sem que eles soubessem, de dentro do carro ou da garupa da moto do MSF, porque isso colocaria em risco os médicos e os enfermeiros da organização.” Um fotógrafo experiente talvez conseguisse registrar a cena discretamente.

Durante uma viagem nos rincões do Congo, um caminhão tombado na estrada fez com que o comboio da MSF ficasse preso durante muitas horas. Estava anoitecendo, e era sabido que no trecho seguinte de estrada os sequestros eram frequentes. Estabeleceu-se comunicação por rádio com uma base da MSF, que avaliou as condições de segurança e decidiu que era melhor retornar até o vilarejo mais próximo. “Foi preciso esconder o carro da MSF, porque se os rebeldes de outros vilarejos ficassem sabendo que havíamos dormido ali, com a autorização de um grupo rival, ficariam desconfiados em relação à neutralidade da ONG”, diz Adriana.

Adriana é da linhagem dos jornalistas que preferem manter um perfil baixo, ou seja, procuram passar despercebidos o tanto quanto possível, para observar tudo de dentro da sociedade sobre a qual pretendem escrever. O fato de viajar sozinha, sem fotógrafo, contribui para isso. Ela também costuma hospedar-se em casas de famílias – de preferência que tenham sido “testadas” e indicadas por outros jornalistas estrangeiros. Foi o que ela fez, por exemplo, no vale do Swat, a região do Paquistão com forte presença do Talibã e onde morava Malala, a menina que foi baleada por querer estudar e que posteriormente ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Essa é uma maneira privilegiada de conhecer como vivem as mulheres nessas sociedades. Na rua, Adriana usava véu ou burca, para não chamar a atenção. “Até os pequenos gestos, porém, como a maneira de olhar para as pessoas, denunciam uma estrangeira”, diz. Ficar na casa de moradores pode, também, ser mais seguro, porque os hotéis em áreas conflagradas muitas vezes se tornam alvos de terroristas. Na primeira vez em que esteve no Afeganistão, por exemplo, Adriana hospedou-se no Hotel Safi Landmark, em Cabul. Um pouco depois, o hotel sofreu um ataque terrorista que matou 18 pessoas e deixou 36 feridos. Reconstruído, o estabelecimento foi atacado novamente em 2011. Quase todos os locais onde a jornalista se hospedou ou esteve para fazer entrevistas no Afeganistão sofreram ataques semelhantes: o Hotel Serena, o complexo Spozhmai à beira do Lago Qargha, um dos poucos locais de lazer dos afegãos, um restaurante libanês sem nome ou placa na porta que reunia locais e estrangeiros, a escola de ensino médio Istiqlal mantida pelo French Cultural Centre, o Instituto Nacional de Música do Afeganistão, o prédio do Ministério da Cultura, o supermercado  Finest, entre outros. O último ataque de que teve notícia foi à pousada Park Palace, um casarão afegão sem placa na porta, onde passou a se hospedar por segurança – em maio de 2015, atiradores entraram na pousada e foram à caça dos hóspedes, deixando 14 vítimas fatais, entre as quais 10 estrangeiros.

Em 2014, um novo ataque ao hotel deixou 9 vítimas fatais, entre as quais um repórter afegão e sua família. Havia 70 pessoas sequestradas no Afeganistão quando Adriana desembarcou em Cabul, em 2008, na primeira de suas quatro viagens ao país.

Havia um acordo entre os jornalistas de não noticiar o sequestro de um colega, para garantir sua segurança”, conta Adriana. “Naquele momento, o principal interesse do Talibã era conseguir dinheiro por meio de resgate. Os jornalistas viraram uma fonte de renda para o grupo. Sequestrá-los era uma forma de investimento financeiro. O Estado Islâmico, no Iraque e na Síria, foi além. Não se trata mais apenas de conseguir dinheiro, mas de fazer um investimento na marca do grupo.”

Nesse contexto, fazer segredo sobre o sequestro de um colega pode até não ajudar a garantir sua integridade física, mas ao menos impede os terroristas de ter a propaganda pretendida.

Por se esforçar para passar despercebida e não correr riscos desnecessários, Adriana nunca foi hostilizada diretamente por estar fazendo o seu trabalho. Certa vez, porém, ela se viu sob ataque por estar em uma base militar afegã justamente no dia em que o Talibã resolveu disparar foguetes contra o local. “Eu estava lá para entrevistar a comandante do primeiro batalhão feminino do exército do Afeganistão e o Talibã atacou a base”, diz Adriana. O ataque durou 18 horas. Foi o mais longo e o mais violento ataque do Talibã em uma década de guerra.