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Caetano Veloso escreve sobre a questão racial no Brasil e a importância do livro “Uma gota de sangue”, de Demétrio Magnoli

Em artigo publicado no dia 18.07.10 no Segundo Caderno do jornal O Globo, Caetano Veloso discorre sobre a questão racial no Brasil e sobre o livro Uma Gota de sangue, de Demétrio Magnoli.


Loura Burra

Caetano Veloso

Luiz Felipe de Alencastro respondeu aos que se opõem às cotas para negros nas universidades com um retrato duro do Brasil. É o Brasil que no seu livro “O trato dos viventes” aparece como a mais rapace das nações escravistas das Américas. Não é apenas a nossa dívida histórica que se agiganta: são as iniquidades com que convivemos hoje que têm sua genealogia exposta. Alguns argumentos, no entanto, ele poderia ter evitado. “Os Estados Unidos foram a primeira democracia do mundo”, disse Alencastro. Sim. Mas os antirracialistas veem o sistema de cotas como um desdobramento da regra da gota única de “sangue negro” para definir um indivíduo como “negro” – e tal regra não está entre as glórias da grande nação do norte. O segregacionismo desmentia o ideal iluminista de universalidade de direitos. O repúdio dos antirracialistas à unificação de pretos e pardos sob a categoria “negros” por ser imitação do modelo americano não pode ser desqualificado pela constatação de que mesmo o STF brasileiro nasceu sob inspiração dos Estados Unidos. A pergunta é: o sistema de cotas é um gesto democrático similar à criação da Corte Suprema ou um estratagema para reafirmar as classificações raciais de que dependeu a segregação?

O livro de Demétrio Magnoli “Uma gota de sangue” não pode ser descartado por argumentos de autoridade. Nada justifica o linchamento que ele sofreu em blogs do lulo-petismo histérico. Seria preciso provar — entre outras coisas — que em 1840 o rei do Daomé não declarou que “o tráfico de escravos tem sido a fonte da nossa glória e riqueza”.

“Uma gota de sangue” é sobretudo um livro contra o multiculturalismo. E procura reafirmar a mestiçagem brasileira como uma saída mais compatível com os direitos universais do que os projetos de igualdade entre grupos étnicos tomados como nações dentro dos Estados. Além de localizar no romantismo de Herder o nascedouro do particularismo cultural que deu no multiculturalismo, apresenta vasta informação sobre a História do pensamento racial. Não vejo razão para anatemizar um livro tão útil, que eu desejaria ver conhecido dos meus amigos dos movimentos negros.

Comentaristas pró-cotas exultam quando Alencastro diz que Ali Kamel não é autoridade em estatística. Há quem não aceite que o Brasil não se sinta branco e reaja à visão que levou as políticas de imigração americanas a distiguirem entre nórdicos e mediterrâneos.

Mas o artigo de Elio Gaspari que exibe números resultantes da combinação de cotas com o ProUni não deveria deixar os antirracialistas insensíveis.
Também a entrevista de Luís Eduardo Soares a Celso Athayde é indispensável.
Quando se pensa que Soares chegou a ser uma espécie de ministro da Segurança Pública, as palavras de Alencastro sobre a gênese da crueldade policial contra negros no Brasil surgem sob as luzes de quem poderia começar a debelá-la. Mas Soares não ficou no governo. O pensamento que o afastou de lá é o que domina as opiniões que se leem nos blogs lulistas.

Lévi-Strauss deplora a escalada de que o ocidente se orgulha: mares poluídos, cidades inchadas, o planeta doente. Também execra o “eu”. Depois traz a tese de que uma cultura precisa contrastarse com outras: a unificação do mundo seria o caminho para a autodestruição. É uma sabedoria científica lá dele que não posso contestar. No momento, estou com o “Samba dos animais” de Mautner (ouçam, não explico: dizem que este espaço é grande, para mim é sempre pequeno). Lévi-Strauss terminou dizendo que tinha defendido várias culturas mas que agora era hora de defendermos (nós quem, cara-pálida?) a cultura europeia. Os pós-estruturalistas não deixaram de manter um ambiente propício ao multiculturalismo.

José Miguel Wisnik diz, em “Veneno remédio”, que, com Oswald e Freyre, o tropicalismo defendia a mestiçagem. Mas o tropicalismo foi racialista.
Conto em “Verdade tropical” como me eram insatisfatórias as políticas que, presas ao internacionalismo da luta de classes, emudeciam sobre raça, sexo e gênero. E como vi o tema racial surgir em Gil. O Jorge Ben do nacionalismo negro é o núcleo da ideologia racial a que Gil aderiu. Hoje Gil é favorável às cotas.
O “Viva a mulata-ta-ta-ta-ta “ de “Tropicália” é ironia amarga contra o oba-oba brasileiro quanto à questão racial. No exílio é que comecei a rever essa posição. Mesmo assim, na volta ao Brasil aproximei-me dos movimentos negros. Meus diálogos com Celso Prudente em Sampa datam da infância do MNU.

A mestiçagem brasileira não precisa ser o céu na Terra para ser levada em conta.
Não conheço Magnoli. Conheço Alencastro. O primeiro é meio Carlos Imperial; o segundo, um príncipe (mas agora o cabelo pintado e o sotaque francês…).

Magnoli agarrar-se ao genoma é ingênuo. Não está descartada a hipótese de se comprovarem diferenças de inteligência entre grupos humanos (não foi por desafeto que outro dia citei o Francis do retorno da eugenia: sou barroco; fique esperto quanto a minhas impertinências). Os liberais se sentem preparados para enfrentar uma tal eventualidade. Caso a nova biologia mostre que as louras são menos inteligentes do que os morenos, a resposta liberal tem minha adesão: individualismo. E médias de grupo não podem se sobrepor a isso. Se a falta de coesão dos meus textos se deve ao meu lado negro ou ao meu lado mulher, dane-se, eu sou eu e nicuri é o diabo.