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Como o trabalho de coaching é percebido | Rubens Marchioni

MEU AMIGO, COACH profissional, pede a minha opinião sobre a maneira como o trabalho é percebido por quem o vê do lado de fora.

Respondo que, segundo o que tenho observado, com exceções que sempre existem, a importante atividade de coaching se transformou num espaço improvisado por ambulantes. Espalhada em barracas, ali existem soluções para todos os tipos de problemas: da fantasia de Carnaval à pomada para coceira ou aquela pecinha do acendedor do fogão. Tudo resolve tudo, mas não se sabe até que ponto. Ao contrário do filósofo René Descartes, esses profissionais ainda não se aproximaram da constatação segundo a qual “Não existem métodos fáceis para resolver problemas difíceis”.

Desempregados às vezes, precisando sobreviver, e com alguns trocados no bolso, muitos se transformaram em especialistas na área de ser tudo para todos – o melhor caminho para ser nada para ninguém. E nem é preciso se chamar Philip Kotler para saber disso. Muitos fazem exatamente assim: oferecem serviços de qualidade duvidosa, uma fusão improvisada de certa igreja popular e milagreira com psicanálise de boteco. Para a elaboração deste artigo, converso com uma profissional que considero das melhores, e ela me adverte para o fato de que “O coach tem de estudar. Bastante. Tem de ter experiência profissional, bastante. Tem, ainda, de se desenvolver, autoconhecer e se atualizar. Tem de fazer suas próprias mudanças de visão e de comportamento. Tem de desenvolver as competências necessárias para o exercício da função e seguir um código de ética”. Seu depoimento, confiável, deixa claro: é preciso trabalhar muito, antes e durante o processo.

A profissão precisa ser reposicionada no mercado, porque ela tem um papel importante a ser cumprido. Como resolver isso? Bem, se atuasse na área, procuraria trabalhar como o arquiteto. Antes de iniciar um projeto, ele conversa, durante muito tempo, com o cliente. Em propaganda, isso acontece quando do levantamento do briefing de criação. Faz isso para conhecê-lo o mais profundamente possível e entender suas reais motivações, quando o assunto é morar com qualidade. O cliente, nesse caso hipotético, é alguém que, ao contratar um arquiteto, busca muito mais que um abrigo. Ele quer um lugar de convívio, um espaço muito bem pensado para acomodar pessoas e projetos com significado que vão além das paredes e cuja altura não se limita ao que é permitido pelo telhado.

Somente depois disso, isto é, somente depois de que nós dois soubéssemos o que desejamos e o que seria feito ou não, começaria a próxima fase, a do projeto de atendimento individual com o coachee. Sem charlatanismo. Sem falsas promessas. Essa postura se justifica, porque nosso mundo foi tomado por uma grande confusão quanto a alguns conceitos e práticas. Pior: em alguns casos, nós contribuímos para a disseminação dessa praga. Veja, por exemplo, o caso de uma campanha política. Em geral, esperamos que o candidato prometa muito. Mesmo que não possa cumprir o que prometeu. Se promete um paraíso, retribuímos com a nossa fidelidade, campanha e voto. Se não promete, o condenamos porque não tem programa. Se promete e não cumpre, nós o crucificamos por nos ter enganado. Difícil.

Por aqui, nessa profissão que vem atraindo curiosos e aventureiros, tantos prometem tanto a quem deseja encontrar tudo, qualquer que seja o custo. E isso impõe uma exigência: a fase de contratação, de esclarecer o que é o quê, com o máximo de transparência, se torna indispensável. Caso contrário, nos inscreveremos na farra do coaching, aquela banda podre que compromete a imagem dos bons profissionais. Eles existem. Eu conheço alguns e posso testemunhar.

Retomando a prática do profissional de propaganda, soube que, certa vez, antes de aceitar a conta de um cliente de varejo, Júlio Ribeiro, dono da criativa Talent, visitou o ponto de venda para detectar fatores que, segundo ele, podiam estar comprometendo os resultados mercadológicos. No entanto, sem o compromisso, por parte do cliente, de que seriam feitas mudanças para resolver deficiências, ele recusou a conta. Por que fez isso? Porque sabia que o trabalho da propaganda, isolado, não resolveria o problema. Seria incapaz de realizar o milagre esperado pelo anunciante: aumentar os lucros. O faturamento obtido sem ética em nada contribuiria com a imagem da agência.

Júlio perdeu dinheiro algumas vezes, é claro que sim. Mas a estratégia deu tão certo que, depois de algum tempo, abriu outra agência. O novo empreendimento visava atender empresas que desejavam estar na Talent e não conseguiam porque, a fim de manter a qualidade, Ribeiro havia definido que teria no máximo 10 clientes.

Agindo como o arquiteto e o publicitário, além de elevar ainda mais a qualidade do meu trabalho, eu atuaria como agente formador de uma nova visão, correta, sobre a profissão, que merece respeito acima de tudo. E contribuiria para o seu reposicionamento, uma necessidade urgente, como disse. Como os bons pratos à la carte, o processo é mais trabalhoso, demora mais para ser preparado. Mas o resultado compensa. Inclusive porque isso me posicionaria como um profissional sério, num mundo em que nem tantos optaram por esse caminho.

Eu não sou coach, essa não é minha praia. Mas vou ficar feliz se tiver dado alguma contribuição para quem está na área e tem metas a serem atingidas, dependendo, para isso, de novas atitudes.


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao textorubensmarchioni@gmail.com — http://rubensmarchioni.wordpress.com