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Escrever um livro exige disciplina e dá trabalho. Mas é fácil – Parte II | Rubens Marchioni

Escrita CriativaQUANDO SE SENTA para escrever, você não o faz sem motivo nenhum. Sempre existe um objetivo, ainda que essa meta do seu trabalho literário não esteja clara logo de início.

Você sempre quer alguma coisa do seu leitor. Pode não ser nada grave, apenas provocar  um sorriso, uma emoção. Talvez se contente em saber que criou, para ele, a oportunidade de soltar uma gargalhada. Ora, ser o responsável por isso pode significar o que justifica o seu trabalho como escritor. Um antigo professor de redação dizia que “Às vezes, tudo o que você precisa fazer é permitir que o seu leitor diga algo como ‘que bom que alguém escreveu isso’”. Essa gratidão é o seu prêmio, portanto.

Como você vê, não se trata de nenhuma revolução, apenas de ter objetivo claro quando escreve, ainda que modesto. Por outro lado, nenhum problema se desejar que, no final, o leitor elabore uma reflexão profunda sobre o sentido trágico da vida. Tudo é válido. Só não se recomenda a ausência absoluta de propósito, negando ao leitor o direito de servir-se do seu trabalho de alguma forma. Como acontece com tudo mundo, escritores também são chamados a deixar um legado para a humanidade, e ele realiza sua missão escrevendo. Provocando sorrisos ou convocando para reflexões sobre questões graves que envolvem a presença do ser humano no mundo, isso não importa.

Mas atenção, lembre-se disso e fuja da armadilha que derruba tanta gente: definir o objetivo não é especificar o que você vai fazer, é estabelecer o que espera que o leitor faça ao ler o que você escreveu.

Portanto, para ter valor, o objetivo deve ser mensurável, a fim de que seja possível aferir os resultados obtidos pelo leitor que se orientou pelo seu texto. A frase, atribuída a Shakespeare, lembra: “Quanto melhor for o objetivo, mais precisa é a nossa pontaria”.  Se estiver bem construído, no final da tarefa você pode observar e medir o efeito produzido. Se aconteceu o que estava previsto, ótimo. Senão, é preciso retomar o assunto, retrabalhando aquele aspecto em que o resultado não foi satisfatório. Como fazer isso sem a possibilidade de medi-lo?

Assim, a redação do objetivo mensurável leva, sempre, três ingredientes essenciais. Um aponta para o verbo, outro para o conteúdo e, por fim, para o resultado – a fim de memorizar, fique com a sigla VCR. Por exemplo: Depois de ler esta série de artigos, meu leitor deverá estar motivado para escrever [verbo] um livro [conteúdo] no período de oito meses, utilizando suas experiências pessoais e fontes bibliográficas encontradas na internet [resultado]. Nesse sentido, sinta-se livre para estabelecer o nível de especificações que julgar necessário.

É claro que não vou fazer isso, mas se tivesse estabelecido esse objetivo num acordo com meu leitor poderia, depois de oito meses, verificar se ele escreveu um livro, utilizando suas experiências pessoais e fontes bibliográficas encontradas na internet. Se tudo isso tivesse acontecido, ótimo, atingi plenamente meu objetivo. Mas se observasse que ele escreveu um artigo, e não um livro, precisaria retomar o assunto e aprofundar esse aspecto com ele, oferecendo-lhe novos conhecimentos, mostrando que livro não é sinônimo de artigo e diferenciando-os mais claramente, além de criar condições para que desenvolvesse as habilidades necessárias para essa empreitada em particular e motivá-lo a produzir a sua obra literária.

Algo precisaria ser revisto se: 1. Ele tivesse escrito um livro, mas usado experiências alheias – 2. Se não tivesse utilizado fontes bibliográficas encontradas na internet – 3. Se tivesse feito tudo corretamente, mas concluído em 11 meses, estourando o cronograma, que estabelecia um período de oito meses para que o trabalho estivesse pronto.

Em todas estas situações devo retomar cada um dos aspectos que não aconteceram de maneira adequada e aprofundá-los. E seguir em frente até que, enfim, ele esteja com o seu livro concluído, em condições de encaminhá-lo para uma editora.

Finalizando esta parte, deixo a pergunta: qual é o objetivo geral, o VCR do seu livro? Que comportamento espera, por parte do leitor, após a sua leitura?

Dividir o assunto em partes e redigir os objetivos específicos

Ao definir o objetivo geral da sua obra, você logo se dá conta de uma coisa: para aumentar as chances de atingir sua meta, o conteúdo do livro terá de ser subdividido. Imagine que o assunto do trabalho será o corpo humano. Para seguir a divisão clássica, é provável que na primeira parte você irá discutir a cabeça; na segunda, o tronco e, na terceira e última, os membros. Além de escrever uma conclusão geral.

Como pode perceber, ao subdividir o conteúdo você acabou de definir os três capítulos do seu livro. Se estiver acompanhando meu raciocínio, perceberá que chegou a hora de escrever os objetivos específicos – um para o capítulo destinado à cabeça, outro para o tronco e, finalmente, um para os membros.

Assim você saberá exatamente o que trabalhar em cada parte, sempre de olho aonde pretende chegar e evitando qualquer tipo de desvio. Isso permitirá que você saiba de que informações vai precisar e quais devem ser descartadas. Além do que, perceberá quando estiver diante da tentação de fugir do assunto – afinal, você tem clareza quanto ao objetivo e percebe que aquela informação ou debate, naquele momento, por mais que pareça interessante, nada tem a ver com o objetivo da sua obra, e ficará para outra ocasião, quando couber em outro objetivo.


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao textorubensmarchioni@gmail.com — http://rubensmarchioni.wordpress.com