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Influências da mídia, ambiente político e preferências | Flávia Biroli

Os meios de comunicação são um aspecto central das sociedades contemporâneas. Esse é um fato pouco contestado. Na mesma medida em que nossa percepção do mundo em que estamos inseridos cresceu em escala, isto é, se ampliou para além do que é territorialmente próximo e cotidiano, as mediações ganharam maior relevância. Novos recursos tecnológicos incidiram sobre seus padrões. Da imprensa às transmissões de rádio, da televisão à internet, acumulam-se textos e imagens que compõem o ambiente social e político em que transitamos.

Como se dá a produção desses textos e imagens? Qual é a forma de organização dessa produção e como ela é financiada? Se a ampla maioria da comunicação é produzida no âmbito de empresas, como os interesses dessas empresas incidem no que é comunicado? E, ainda, qual é a relação entre o ambiente comunicacional e o ambiente político, entre o controle sobre a comunicação e o controle sobre o Estado? Essas são algumas das questões que atravessam as pesquisas sobre mídia e política.

Quando o termo democracia é inserido nas análises, um componente normativo se associa a essas questões. Trata-se não apenas de entender como funciona a comunicação em sociedades complexas, mas também de analisar quais modos de produção e circulação da informação são compatíveis com a democracia, em suas dimensões institucionais e cotidianas. Nesse ponto é que chegamos a uma contradição importante nas sociedades capitalistas: a concentração dos aparatos de comunicação nas mãos de alguns grupos está em conflito com a ideia de uma sociedade na qual a soberania popular é o fundamento das decisões políticas.

Notícias em disputa

De maneira bem simplificada, os meios de comunicação empresarias são atores interessados na construção do ambiente político em que as pessoas se situam, fazem suas escolhas e avaliam os resultados dessas escolhas. Em sociedades complexas e conflitivas, isso implica que algumas visões e interesses estarão alojadas em processos comunicativos com grande potencial para alcançar massivamente a população em um país de dimensões continentais, enquanto outras visões e interesses poderão circular, porém de maneira mais localizada ou com menor ressonância.

Nossas preferências não são inatas. Mesmo naquilo que é rotineiro, elas se definem em contextos sociais, legais e institucionais determinados. Quando se trata da política institucional, há uma dimensão que é mais discutida talvez por ser mais evidente, que é a da adesão das empresas de comunicação a candidatos ou partidos políticos. É o ponto em que a atuação da mídia se encontra com as escolhas eleitorais e temos o problema da influência midiática na definição de pleitos específicos. Aqui, a visibilidade de candidatas e candidatos na mídia, mas principalmente a associação entre elas/eles e qualidades e defeitos dentro de narrativas mais amplas sobre competências políticas e problemas sociais é um ponto central. Um exemplo foi a eleição de Fernando Collor de Mello, em 1989, construído com o “caçador de marajás” em meio a narrativas que definiam como problemas centrais do país os salários do funcionalismo e desvios de agentes públicos.

Entre eleições, no entanto, outras dimensões ficam mais evidentes: todos os dias, o noticiário e mesmo a programação de entretenimento dão relevo a determinados problemas, e não a outros; concedem voz a determinados atores sociais (individuais e coletivos) e dão forma a certos interesses, mas não a outros. Constroem-se, assim, ambientes nos quais certos problemas são o eixo das narrativas sobre os desafios da política e mesmo sobre o que somos como sociedade. Os silêncios, isto é, as narrativas, experiências e atores que não ganham lugar no dia-a-dia do noticiário são um ponto crucial, já que estamos tratando de sociedades complexas, nas quais os conflitos de interesses estão ligados diretamente a hierarquias e desigualdades sociais.

Assim, problemas fiscais do Estado podem ser todos os dias apresentados nas vozes de “consultores” e “investidores”, enquanto alternativas para os problemas fiscais que considerem as desigualdades sociais, por exemplo, são ausentes nos noticiários. A corrupção pode ser agenda constante, mas pode ser associada a desvios de alguns atores sociais e não à forma regular da relação entre Estado e capitalismo, isto é, à influência sistemática do dinheiro na conformação do Estado, organizando as regras do jogo, a política econômica e o orçamento, além, é claro, de financiar candidatas/os e eleitas/os. Com isso, determinadas formas de abordar o Estado e a política ganham expressão massiva, enquanto outras têm menor potencial de difusão. Seguindo com os exemplos aqui utilizados, a defesa da austeridade fiscal e o combate aos desvios de políticos corruptos podem se tornar o discurso de referência em um dado contexto político.

Nesse ponto é que chegamos a uma contradição importante nas sociedades capitalistas: a concentração dos aparatos de comunicação nas mãos de alguns grupos está em conflito com a ideia de uma sociedade na qual a soberania popular é o fundamento das decisões políticas. 

É claro que pesam também as experiências cotidianas das pessoas; pesa o grau de organização política de públicos subalternizados (trabalhadoras/es, mulheres, população LGBT, população negra). Pesa especialmente o grau de pluralidade do debate público. Nele, incidem não apenas as regras de concessão e a concentração relativa do mercado de mídia, mas também o ambiente complexo da internet e a imprensa alternativa, o sistema de financiamentos por meio de publicidade estatal, que pode ser voltado para algumas grandes empresas ou mais diluído, a comunicação organizada de outros setores da sociedade civil, como igrejas e sindicatos.

O ambiente político-midiático é, sem dúvida, multifacetado. Mas a história brasileira mostra que o fato de que tenha se tornado ainda mais complexo com o advento da internet não tornou menos importante a ação política das grandes empresas. O golpe de 1964 e o de 2016, a transição e campanha pelas diretas nos anos 1980 e a crise atual em que, esfacelado o bloco no poder, temos o embate aberto entre um grupo há pouco levado ao poder com o protagonismo da maior empresa brasileira de comunicação e essa mesma empresa, mostram diferentes padrões de atuação da mídia. Em todos os casos, a análise das relações entre mídia, democracia e preferências políticas permanece como um desafio de primeira ordem para se compreender o jogo político e seus desfechos, tanto quanto as formas assumidas pela adesão de diferentes setores da população a posições e interesses em conflito.


Flávia Biroli é doutora em História pela Unicamp e professora do Instituto de Ciência Política da UnB, onde também coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê). É autora de diversos livros.