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Procrastinação: a arte de descansar antes de estar cansado | Rubens Marchioni

COMO SE DEFINE a procrastinação? O termo, que vem do Latim, é formado pelo prefixo “pro”, que significa “para frente”, e pelo advérbio “cras”, sinônimo de “amanhã”. Assim, procrastinar consiste em deixar para amanhã alguma obrigação que pede cumprimento hoje. Algo como não agir agora, movido pela preguiça, talvez substituindo a atividade por outra, mais prazerosa.

Entrando no terreno das motivações para o problema, é provável que exista mais de uma causa para esse hábito nada saudável. Segundo o filósofo grego Demócrito, seu fundamento está na ignorância do bem. Faz sentido. No mais das vezes, deixar para depois, omitir-se, é a fórmula segura para a produção do mal. Quem tem fome tem pressa. Quem tem sede tem pressa. Quem está doente tem pressa. Quem é discriminado tem pressa. Quem precisa de justiça e direitos respeitados tem pressa. A lista não termina aqui. A lista não termina nunca.

Uma das causas da procrastinação, quem sabe, também pode estar naquela preguiça paralisante que, segundo o pensador francês La Rochefoucauld, se concentra mais no espírito do que no corpo. Pena que, desejando descansar antes de estar cansados, seremos apenas relógios sem corda, improdutivos. Nosso foco estará voltado para o acidental, negligenciando o que realmente conta, o essencial para qualquer ideia de progresso e bem estar pessoal e coletivo. Assim, a raiz da ausência de progresso pode estar na incapacidade de assumir uma tarefa e, movido por um comportamento profissional e de respeito ao outro, levá-la até o fim, buscando sempre o melhor nível de qualidade.

Nessa investigação sobre o que leva à procrastinação, por que não trabalhar, também, com a hipótese de um suposto medo de enfrentar o desafio que nos espera? É da nossa natureza ter receio de viver o que não dominamos completamente. Hesitamos na hora de entregar-nos ao que ainda não está completamente claro. Não é por acaso que, entre a oportunidade e a segurança, preferimos a segunda, agindo como se a vida ameaçasse mais do que a própria morte.

A propósito disso, vale lembrar a advertência do filósofo americano Ralph Waldo Emerson: “Não aprendeu a lição da vida quem não domina o medo de cada dia”, usando-o como desculpa para empurrar compromissos importantes com a barriga. William Shakespeare complementa o pensamento, sugerindo que “Não é digno de saborear o mel aquele que se afasta da colmeia com medo das picadelas das abelhas”. Ora, não há por que ter medo de uma eventual tempestade, desde que a gente saiba guiar a própria embarcação. Aqui entre nós: você sabe de onde vem, onde está e para onde vai? Dispõe de habilidades para gerenciar essa viagem que não aceita ansiedade nem preguiça?

Outra explicação possível para a procrastinação: a insegurança frente ao resultado do trabalho a ser feito, que nunca é satisfatório na primeira versão. Pudera, nada nasce perfeito. E a perfeita adequação exige persistência e muita determinação, nada parecido com o hábito de ignorar a tarefa, como se isso a anulasse. Aceitar o desafio da realização e do aprimoramento é uma prática que dissipa as inseguranças, extingue os medos e nos abastece de esperança. Sempre é melhor fazer aproximadamente agora do que exatamente nunca.

O contrário disso cria espaços para que ela cause danos, tanto para a pessoa que a pratica, quanto para a empresa ou instituição que é vítima. Apenas para citar alguns exemplos, o trabalho se acumula. O atraso na entrega de produtos e serviços leva à perda de clientes e de mercado. Os prejuízos financeiros se revelam sem demora. Tudo isso é consequência de comportamentos como a indiferença e a negligência.

O resultado não podia ser diferente: injustiça para com o outro, uma vez que a procrastinação o sujeita a situações constrangedoras e indesejadas, com prejuízos morais e materiais, como a necessidade de assumir o trabalho que não foi feito por alguém, em caráter de emergência, tendo de abrir mão do próprio descanso legítimo, ou se privar do uso de itens essenciais ao desempenho das suas atividades.

Por fim, vale lembrar que o futuro sempre está em conflito com o presente em seu processo de construção. Nesse contexto, não existe saída a não ser essa: se desejamos estar devidamente preparados para ele, o caminho é a execução mais perfeita possível das tarefas que temos para hoje – para hoje, eu disse. “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”, lembrou Peter Drucker, um dos maiores especialistas em Administração Moderna.

Se você leu até aqui, o primeiro passo, isto é, tomar conhecimento do assunto, já foi concluído. Agora falta a prática, tradução dessa teoria, que exige certa dose de atitude. Vamos começar?


RUBENS MARCHIONI é palestrante, publicitário, jornalista e escritor. Eleito Professor do Ano no curso de pós-graduação em Propaganda da Faap. Autor de Criatividade e redação, A conquista Escrita criativa. Da ideia ao textorubensmarchioni@gmail.com — http://rubensmarchioni.wordpress.com