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Que pátria é esta? | José de Souza Martins

Publicado em Valor Econômico [Caderno Eu& Fim de Semana], 8-10 de setembro de 2006, p. 10-11.


Às vezes, a pátria imensa parece imensamente pequena. Aprendemos todos, na escola, lições inesquecíveis e belas sobre a grandeza da pátria. A própria bandeira tremulava cores da imensidão de nossas matas, da abundância do nosso ouro, do nosso céu azul mais azul e sem limites. Era um recurso metafórico para que aprendêssemos a amar a nossa terra. Não aprendemos: derrubamos e queimamos a mata, exaurimos sem resultados o ouro, poluímos o céu. As cores, na verdade, tinham origem na história das bandeiras de Portugal. Não obstante, a pátria ficou em nosso peito e em nossas esperanças.

Não é estranho que se encontre aqui e ali, com mais frequência do que nossa dignidade gostaria, expressões de uma consciência de pátria que preocupa e comove. É a consciência da orfandade dos brasileiros que, vivendo em exílio na imensidão da terra brasileira, se pensam estrangeiros porque da pátria só receberam privação, sofrimento, abandono, injustiça e dor.

Lembro de Regimar, uma menina bonita, de uns 10 ou 11 anos de idade, magrinha, o rosto moreno, bem brasileiro, delicado, cheio de ternura e inocência. Foi no que era então um povoado muito pobre nascido da noite para o dia no meio da selva, no limite entre o Maranhão e o Pará. Era uma das crianças que eu estava entrevistando sobre a experiência humana do deslocamento da chamada frente pioneira na Amazônia. Sentamos nuns tocos de pau ao pé da escola de pau-a-pique, cobertura de palha e chão de terra batida. Ao lado, um tronco imenso, caído, diâmetro quase da altura de Regimar. Servira como trincheira num dos tiroteios recentes entre pistoleiros de um grileiro do Pará, que queria se apossar da terra já ocupada, e os dez mil posseiros pobres que cultivavam arroz na terra adubada por seu suor e pelas cinzas da floresta. Num dos ataques, enquanto os pais das crianças estavam na roça distante, os criminosos tocaram fogo na mata ao redor, o chamado fogo de encontro. O fogo cercaria todo o povoado, queimaria as casas. Ali só havia crianças e velhos. Gente indefesa como Regimar, que cozinhava, lavara e cuidava dos irmãos pequenos e da casa. Um sopro de vento providencial levou o fogo para outra direção. Regimar narrou serenamente o acontecido. Ao notar que eu me afligia, quis tranqüilizar-me: “Mas tudo isso vai acabar. Minha família vai embora do Brasil. Nós vamos para Roraima…”

Desse estranho Brasil falou-me, também, uma velha índia Carajá, na aldeia de Santa Isabel do Morro, na Ilha do Bananal. Conversávamos. Achei-a triste, quis saber porque. O filho tinha se casado com uma brasileira e “fora embora para o Brasil”, disse-me ela apontando para o Mato Grosso, no outro lado do rio Araguaia, que dali se via. E “naquele Brasil”, numa rua de terra de São Félix do Araguaia, à beira do rio, vi um bando de crianças debochando e gritando insultos para um índio carajá que passava, cabisbaixo, no rosto, sob os olhos, os círculos que são a marca distintiva da identidade de sua tribo. Ralhei com eles e lhes perguntei por que faziam aquilo se aquele índio era gente como nós? Um dos meninos arregalou os olhos e me corrigiu: “ele não é gente que nem eu, não. Eu sou cristão. Ele é gentio!” Eco que vinha do fundo dos tempos, da época colonial, quando a humanidade deste país era classificada de outro modo, dividida entre convertidos ao catolicismo e ímpios. Gente e bicho, segundo a definição crua que ouvi pelos sertões do Brasil, herança da religião colonial.

Esse Brasil disperso e não raro ausente, de gente brasileira sem Brasil, tem suas causas históricas. Fernando Henrique Cardoso, em estudo sociológico do início dos anos setenta, sublinhou o fato de que aqui, diversamente do que ocorreu em outros países latino-americanos, a independência política não foi o resultado de uma revolução da sociedade civil que nos contrapusesse à metrópole portuguesa. A sociedade não foi a autora do Brasil independente. O próprio herdeiro da coroa de Portugal, isto é, o próprio Estado, proclamou a independência da Colônia sem a participação do povo. Aqui a sociedade civil foi inventada pelo Estado, como uma sociedade coadjuvante, tutelada e frágil.

O chamado “grito do Ipiranga”, na tarde de 7 de setembro de 1822, na colina histórica, não teve a intencionalidade que muitos supõem. O improvisado ato apenas abriu um hiato de incerteza quanto ao futuro da colônia que já fora declarada reino em 1815, unido ao de Portugal e Algarve. E só no dia 12 de outubro, com a coroação do Imperador Dom Pedro I, herdeiro também da coroa de Portugal, é que ficou claro que o Brasil se tornava uma nação independente. Nos 35 dias que separaram as duas datas, desenrolou-se a trama que transformou o Brasil de Reino Unido a Portugal, dos sonhos do Príncipe, no Brasil independente do ideário de José Bonifácio e dos que o assediaram desde as primeiras horas do grito incerto. Nesses 35 dias, foi gestado e inventado o Brasil que conhecemos. Em 12 de outubro, ficou Dom Pedro sabendo que criara uma pátria.

O plano da Independência do Brasil, porém, vinha de longe e também de outros. Na Biblioteca Britânica, em Londres, encontra-se um documento, anterior a junho de 1806, que é o esboço de um esquema para transportar Dom João, Príncipe Regente de Portugal, futuro Dom João VI, ou seu filho, Dom Pedro, para o Brasil, acompanhado por uma força militar inglesa, para apoiar a emancipação da América do Sul, portuguesa e espanhola, e abrir o comércio dessa região ao comércio britânico. Só em fins de 1807 a Família Real fugiria para o Brasil, aqui chegando em 1808, retornando a Portugal em 1821. Antes de partir, deixava aqui o Rei, de propósito, seu próprio filho e herdeiro, com a recomendação de que colocasse sobre a cabeça a coroa no caso de que o Brasil se separasse de Portugal.

Muitas e desencontradas cabeças imaginaram o destino do Brasil, mas de um Brasil sem povo, de um Estado sem sociedade, deitado eternamente em berço esplêndido.


José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil. Professor titular aposentado de Sociologia e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Pela Contexto, publicou os livros A sociabilidade do homem simples, Sociologia da fotografia e da imagem, Fronteira, O cativeiro da terra, A política do Brasil lúmpen e místico, A Sociologia como aventura, Uma Sociologia da vida cotidiana e Linchamentos.