Close

Quem são os franceses “da gema”?

Quando será possível começar a falar em franceses propriamente ditos? A resposta não é nada simples, pois aqueles que hoje formam o povo francês têm origem étnica e histórica muito variada. E não se trata apenas dos descendentes de imigrantes que se instalaram no país nos séculos XIX e XX, pois mesmo aqueles que se poderiam considerar como filhos da terra – tais como os borguinhões, normandos, bretões, aquitanos, savóios e lioneses, sem falar dos bascos, corsos e alsacianos – assumiram-se enquanto franceses em momentos e em condições históricas muito distintas. Isso não quer dizer que não existam franceses propriamente ditos e que essa identidade nada mais é do que uma ficção propagada pelo Estado. Quem conhece um pouco a França e já teve algum contato com o seu povo não tem a menor dúvida de que os franceses existem, sim, tão forte e marcante é a sua identidade. No entanto, uma coisa é a identidade de um povo, outra bem diferente é sua composição étnica e formação histórica. Tomemos alguns casos para exemplificar essa unidade identitária na diversidade étnico-histórica.

Se hoje não há qualquer dúvida de que os bretões sejam franceses da gema, apesar de terem alguns traços culturais bem peculiares e uma língua regional que não tem nada a ver com o francês e com as línguas latinas, esta certeza é relativamente recente. Os bretões têm, ainda, uma origem étnica peculiar e diferente da dos demais franceses. São oriundos da Grã-Bretanha, de onde vem a origem do topônimo “Bretanha” e do gentílico “bretão”. Muito provavelmente, foi a expulsão dos bretões de suas terras insulares pelos anglo-saxões, que então invadiam a Inglaterra por volta do século V, que os levou a migrar em massa para aquela península que se projeta mar adentro entre o Canal da Mancha e o oceano Atlântico. Os bretões mantiveram-se independentes e politicamente separados dos franceses até o século XVI. Seria apenas em 1532 que o Ducado da Bretanha passaria à condição de província do Reino da França. E mesmo por um longo tempo após essa união, a Bretanha seria vista como uma província “estrangeira” ligada à coroa francesa.

Já com os normandos, a história foi completamente outra. Sua origem étnica também difere completamente da dos demais franceses. Descendem dos vikings. Alguns séculos após a ocupação pelos bretões da península da Armórica (como era chamada na Antiguidade toda a região que ia da Bretanha à Normandia), foi a vez dos escandinavos desembarcarem nas terras contíguas ao norte. Mas os vikings não migraram em massa, como fizeram os bretões. Foram aos poucos, entre 790 e 1030. Inicialmente, os northmanorum, isto é, os “homens do norte”, como eram chamados pelos habitantes locais – donde a origem do gentílico “normando” e do topônimo “Normandia” –, iam durante o verão saquear os tesouros dos mosteiros cristãos localizados no que fora antes a Gália Ocidental, voltando com o butim em suas embarcações para passar os invernos na Escandinávia. Aos poucos, aqueles vikings – majoritariamente originários da Dinamarca, mas também da Noruega e da Suécia – foram se instalando e miscigenando com a população local, dando origem aos normandos propriamente ditos. Dos vikings, os normandos herdaram a habilidade e a tecnologia da construção naval, o que lhes permitiu, mais tarde, formarem o que foi, provavelmente, o mais forte Estado feudal do Ocidente, lançando-se, com sucesso, à conquista da Inglaterra, da Sicília e do Oriente Próximo durante as Cruzadas. Contrariamente aos bretões, que mantiveram a sua língua original e que cultivam, até hoje, um nacionalismo bastante forte, os normandos logo adotaram a língua francesa, levando-a, inclusive, para a Inglaterra. Durante mais de três séculos, a Inglaterra foi governada por reis normandos, sendo o francês a língua oficial da corte inglesa.

Os savóios (savoyards) só passaram a ser franceses a partir de 1860, quando Napoleão III assinou com Victor Emanuel II, rei da Sardenha, o Tratado de Turim, que anexava a Savóia à França. Durante a primeira parte do século XIX, os savóios, povo que habita a parte ocidental dos Alpes, emigraram em grande número para a França a fim de exercer diversas atividades, sobretudo as menos qualificadas. Mas, entre os diversos estrangeiros que chegavam à França, os savóios eram considerados os mais franceses dos imigrantes vindos das províncias vizinhas. Além de bons trabalhadores, ordeiros e dóceis, o que logo lhes trouxe uma boa reputação, eles destacavam-se dos demais imigrantes em algo que é muito importante para os franceses: a facilidade com que aprendiam e falavam francês e assimilavam os costumes locais. Por isso, chegaram mesmo a ser considerados como “aristocracia da imigração”. Devido à rapidez e facilidade de sua assimilação à sociedade francesa, os imigrantes savóios logo se tornaram partidários da incorporação da sua região natal à nação francesa, incentivando os seus compatriotas a votarem pela anexação no plebiscito de 1860.

A região ao sul da Savóia, já à beira do Mediterrâneo, na Côte d’Azur, constituía até 1860 o Condado de Nice, que foi criado em 1388 e manteve-se ligado ao Ducado da Savóia e aos diferentes estados italianos até a sua anexação pela França. Diferentemente da Savóia, onde não se percebem mais vestígios da sua longa ligação com a Itália, em Nice a presença italiana é marcante, embora nem tanto na região litorânea ao longo da Promenade des Anglais, onde se situam os hotéis elegantes e concentram-se os turistas, mas claramente na cidade velha, que ocupa a região em torno do cais. Quem anda pela velha Nice sente-se numa cidadezinha italiana, com seus edifícios pintados em tons de amarelo e ocre, roupas penduradas em varais nas janelas e balcões e lambretas circulando em suas ruas estreitas. Nos restaurantes, a massa é um acompanhamento presente na maior parte dos pratos principais. Embora todos falem francês, os sobrenomes de muitos de seus habitantes são de origem italiana. Uma visita ao cemitério de Nice é bastante reveladora desse fato, tantos são os nomes italianos inscritos nas lápides.

A integração dos corsos à França, embora anterior em quase um século à dos nativos da Savóia e de Nice, não é até hoje tão pacificamente aceita, ao menos por uma parte deles. Entre todas as regiões da França, é na Córsega que se encontra o movimento separatista mais forte e violento do país. Embora a Córsega receba anualmente centenas de milhares de turistas, que no verão fazem a sua população quintuplicar, os “estrangeiros” – isto é, os não-corsos, ainda que franceses – não são bem vistos como proprietários de imóveis na ilha. Os que ousam desafiar esse sentimento, comprando uma das tantas casas em ruínas que se encontram nos seus inúmeros vilarejos com o intuito de recuperá-las e utilizá-las como casas de veraneio, correm o risco de tê-las depredadas durante o inverno. Essa é uma forma nada sutil, mas bastante eficiente, de desencorajar os forasteiros a se instalarem por lá. Fora essas reações dos grupos extremistas, os corsos, em geral, são muito afáveis e recebem bem os turistas e são, sobretudo, muito orgulhosos da sua terra e das suas origens.

Entre os corsos mais famosos e notáveis de toda a França encontra-se Napoleão Bonaparte, nascido em Ajaccio, maior cidade da Córsega, localizada ao sul da ilha, apenas um ano após a anexação do território à França. Mas o orgulho corso não se satisfaz em ter apenas Napoleão como conterrâneo. Ao lado desse ícone que levou os valores da Revolução Francesa a toda Europa, os corsos perfilam aquele que levou os europeus ao Novo Mundo: Cristóvão Colombo. Sim, para os corsos Colombo não teria sido genovês, como nos ensinaram na escola, mas corso, nascido na cidade de Calvi, ao norte da ilha. Na cidadela de Calvi, há umas ruínas onde, afirmam eles, seria a casa na qual teria nascido o navegante que descobriu a América. Embora não haja qualquer comprovação histórica, essa versão é bastante provável. A Córsega esteve sob dominação genovesa durante quatro séculos, antes de ser vendida à França, em 1768. Certo é que quando Colombo nasceu, em 1451, os genoveses ocupavam a ilha. A questão da nacionalidade de Cristóvão Colombo seria, então, semelhante à dos sírios e libaneses que migraram para a América do Sul no final do século XIX e início do século XX. Embora árabes, passaram a ser chamados de turcos, tanto no Brasil quanto na Argentina, pelo simples fato de portarem um passaporte do Império Otomano. Com Cristóvão Colombo teria acontecido o mesmo. Embora nascido na Córsega, ele era cidadão genovês, e como genovês entrou na história para desalento de seus compatriotas corsos. Como a história não dirime essa questão, mais uma vez, aplica-se aqui o ditado italiano: si non è vero è bene trovato!

Excetuando o lado extremista e violento dos separatistas da Córsega, o nacionalismo dos corsos, em geral, não conflita com a nacionalidade francesa. Problemática e conflitante mesmo foi a situação que viveram os alsacianos e lorenos entre a segunda metade do século XIX e a primeira do século XX. Como região limítrofe entre duas das mais fortes e rivais nações da Europa, os habitantes da Alsácia-Lorena seriam ora franceses, ora alemães, sem que ninguém lhes perguntasse o que eles, de fato, queriam ser. O que se convencionou chamar de Alsácia-Lorena é uma região composta pela totalidade da Alsácia – atualmente dividida em dois departamentos, Baixo Reno e Alto Reno, cujas cidades principais são Estrasburgo e Mulhouse, respectivamente – e por um quarto da Lorena, que compreende o departamento da Mosela, e que tem Metz por cidade principal. Os outros três quartos da Lorena, que têm Nancy como cidade principal e que durante séculos foi a capital do Ducado da Lorena, são inteiramente franco franceses. A língua, a culinária, a arquitetura, nada ali lembra a Alemanha, contrariamente ao que ocorre na Alsácia e na Mosela, onde tudo parece alemão. E não é para menos. As populações nativas da Alsácia-Lorena são de origem germânica e falam, ainda hoje, uma língua regional que é um dialeto do alemão. Do século XVII até a Guerra Franco-Prussiana, em 1870, a região esteve ligada à França. Essa relação estranha e peculiar da Alsácia com a França foi definida por Voltaire (1694-1778) da seguinte maneira: terre qui est en France et non terre de France, ou seja, uma terra que estava na França, mas que não era a França. O domínio francês sobre a região foi interrompido em decorrência da derrota do exército francês pelo prussiano, em 1870. Com a Unificação Alemã no ano seguinte, a região passou a ser parte integrante do Império Alemão, deixando seus habitantes de serem cidadãos franceses para se tornarem cidadãos alemães.

É claro que essa mudança brusca de cidadania não foi fácil para todos. Embora houvesse muitos pangermanistas entre os alsacianos, havia outros tantos que eram francófilos e se sentiam franceses. A anexação da região à Alemanha levou, então, muitos alsacianos a trocar a sua terra natal pela Argélia, como o pai de Albert Camus (1913-1960), ou por outras regiões da França, como a família do capitão Alfred Dreyfus (1859-1935). Mas é claro que nem todos os alsacianos e lorenos francófilos migraram, permanecendo a maior parte deles em suas terras a despeito de suas preferências nacionais. Foi, provavelmente, pela presença de uma população hostil à nação alemã na Alsácia-Lorena que a região não se tornou um entre outros estados da Alemanha unificada. Se tivesse adquirido a condição de Staat, a Alsácia-Lorena teria ganhado certa autonomia administrativa, o que parecia um tanto temerário ao poder central alemão. E, para não ser incorporada à Prússia, o que daria a esse estado uma força ainda maior do que já tinha no conjunto da jovem nação alemã, a região adquiriu a situação peculiar de Reichsland, isto é, “terra do império”, o que grosso modo equivaleria à situação de um território federal na federação brasileira. Foi apenas em 1911 que o Reichsland se transformaria em Land, isto é, ganharia a mesma condição dos demais estados que compunham, então, a Alemanha. Mas essa condição duraria pouco, voltando a região aos domínios da França após a Primeira Guerra Mundial.

Como alemães, e com seus ônus e bônus, os alsacianos e os lorenos da Mosela viveriam por quase cinqüenta anos. E os bônus não foram poucos. Assim como os demais alemães, os habitantes da Alsácia-Lorena se beneficiariam muito com o vigoroso desenvolvimento econômico ocorrido após a unificação da Alemanha. Foi certamente por essa razão que o retorno da Alsácia-Lorena à França, em 1919, teve de ser acompanhado de algumas concessões do Estado francês à região. Não seria mais possível ignorar quase meio século de dominação alemã sob a qual os alsacianos e lorenos ganharam alguns direitos e vantagens de que não dispunham nem nunca dispuseram os demais cidadãos franceses. Assim, criou-se um regime jurídico específico para os dois departamentos da Alsácia e para a Mosela, composto por um misto de leis francesas anteriores a 1871 e não revogadas pelo Império Alemão, leis alemãs criadas entre 1871 e 1918 e algumas outras disposições com validade restrita à região.

Ainda hoje, os habitantes daqueles três departamentos da França gozam de vantagens específicas, como alguns dias de feriado a mais por ano, uma cobertura maior da previdência social e alguns direitos civis e comerciais específicos. Em matéria de relações entre Estado e religião, as diferenças entre a região e o restante da França são ainda mais marcantes. A clara separação entre Estado e religião, que foi iniciada com a instituição da escola pública, leiga e obrigatória, em 1881, e completada com a lei de 1905 (Loi de la laïcité), ocorreu na França quando a Alsácia-Lorena já se encontrava sobre dominação alemã. E, se para os franceses a República leiga se tornou um marco fundamental na sua identidade nacional, para os alemães a questão Catholish oder Protestant? continuou sendo tão fundamental quanto no tempo da Reforma. Na Alemanha, não há separação completa entre Estado e religião e, conforme a resposta que o cidadão-contribuinte der a essa questão, parte de seus impostos será destinada às igrejas de confissão reformada ou de confissão romana. Na Alsácia-Lorena, restou uma memória desta aproximação entre Estado e Igrejas. Na região, não vige o princípio do ensino laico, como no restante da França, mas o estabelecido no Concordato de 1801, que disciplinava as relações do Estado francês com as religiões então dominantes na sociedade e reconhecidas pelo poder público: a católica, as diferentes denominações protestantes tradicionais e a judaica. Assim, nas escolas da Alsácia e da Mosela, o ensino religioso é obrigatório na escola primária, sendo dispensados dessa formação os alunos cujos pais assim o desejarem e se manifestarem por escrito. Além disso, e mais surpreendente ainda, é a prerrogativa do presidente da República Francesa de nomear os bispos de Estrasburgo e de Metz – após a devida consulta e a aprovação da Santa Sé, é claro! De forma análoga, o Estado francês tem influência na nomeação dos grão-rabinos e dos membros dos consistórios protestantes na região.

Essa relação especial que a Alsácia-Lorena mantém com o restante da França foi interrompida apenas por um curto período, quando o exército nazista invadiu a França, em 1940, e reintegrou a região à Alemanha do Terceiro Reich. Durante cinco anos até a capitulação da Alemanha, os alsacianos e lorenos da Mosela voltaram a ser cidadãos alemães, como haviam sido vinte anos antes por quase meio século. Depois disso, os habitantes da Alsácia-Lorena voltaram a usufruir da cidadania francesa e a gozar do estatuto especial concedido à região em 1919. Com a criação da Comunidade Econômica Européia após a Segunda Guerra, Estrasburgo iria ser escolhida como sede do Parlamento Europeu, uma escolha ao mesmo tempo simbólica e estratégica para mostrar aos franceses, aos alemães e a todos os europeus que aquela não era mais uma região de disputa franco-alemã, mas de integração da Europa e de entendimento entre os seus povos. E que, a despeito de suas rivalidades históricas e após tantas guerras que deixaram tantos mortos em ambos os lados, franceses e alemães acabaram, finalmente, decidindo construir pela via do diálogo e do entendimento um futuro comum para ambos e para todos os europeus que assim o desejassem.

A esse núcleo duro de franceses da gema, formado por sucessivas camadas tectônicas sedimentadas em diferentes períodos da geo(nea)logia do povo francês, agregaram-se outros muitos novos franceses, só que não mais pela anexação de territórios à pátria-mãe, mas pela imigração. A primeira onda de imigrantes oriundos, sobretudo, de outros países da Europa, acabou sendo bem integrada, apesar de ter suscitado vivas reações de xenofobia no início. A segunda, no entanto, composta majoritariamente de imigrantes de origem africana e muçulmana, até hoje não foi bem digerida por nenhuma das partes: nem pelos velhos, nem pelos novos franceses.

 

os franceses


O texto acima é um trecho do livro Os Franceses, de Ricardo Corrêa Coelho