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Redes de contatos é tudo | Manual do Frila

Manual do Frilainteresse pelo trabalho como freelancer já não se limita aos jornalistas que estão no mercado: manifesta-se fortemente entre os estudantes. Muitos cursos de Comunicação implantaram a disciplina “Empreendedorismo” para fomentar nos jovens a visão de que é possível ser dono do próprio nariz. A má remuneração que se costuma oferecer a recém-formados nos empregos convencionais contribui para que os futuros jornalistas considerem a hipótese de iniciar a carreira como autônomos.

Essa é uma das diferenças da geração que está saindo dos cursos de Jornalismo em relação à minha – mais de 15 anos nos separam. Não lembro de muitos colegas que pensassem em abrir imediatamente um negócio próprio. Quase todos tinham a sensação de que o caminho natural seria trabalhar alguns anos como empregado (assim conheceriam as entranhas da profissão) para só depois planejar voos solos, se fosse o caso.

Já os jovens de hoje parecem ansiosos para antecipar o momento da independência.

Numa das palestras que fiz em universidades, fiquei um tanto espantado ao constatar o teor das perguntas dos estudantes. Eles demonstraram ser, digamos assim,práticos demais. Queriam saber como eu estabelecia contato com os veículos nacionais, que referências usava para definir os preços, quanto ganhava por mês e que tipo de empresa eu tinha. Poucas questões sobre aspectos mais sutis e “filosóficos” relacionados ao exercício da profissão como freelancer.

Admiro esse tipo de audácia – gente que acredita que algo é possível e corre atrás do objetivo –, mas sempre que posso aconselho os jovens jornalistas a atuar alguns anos como empregados antes de tentarem a sorte como freelancers. A razão para isso é muito objetiva: a maioria dos trabalhos de um frila vem de veículos e pessoas com os quais já tivemos contato profissional anterior. Mesmo quando aparece uma nova fonte, normalmente é por indicação de alguém que nos conhece.

O peso decisivo da rede de contatos foi ressaltado por todos os colegas ouvidos para este livro. Quando pedi para transformarem o que estavam dizendo em percentual, o número mais citado foi 90% de trabalhos oriundos de pessoas com as quais havia contato anterior e não mais que 10% como resultado de novas prospecções. Perfeitamente normal, pois todo mundo prefere contar com os serviços de um profissional já testado e aprovado – isso vale para encanadores, massagistas, psicólogos e também para jornalistas.

Por isso é tão difícil para um recém-formado atuar como freelancer. Ele não teve tempo para estabelecer uma rede de contatos, conhece pouca gente no mercado e não ostenta um currículo que possa funcionar como argumento. Por que contratar alguém nessas condições em lugar de um profissional mais experiente? Simples: para pagar um preço ridiculamente baixo pelo trabalho. Se é para ser explorado, melhor que seja atuando em um jornal, revista, rádio, assessoria ou qualquer outro lugar que proporcione experiência real de mercado e contribua para que o jovem profissional comece a montar a sua rede de contatos.

Mesmo nos casos de quem dispõe de um bom currículo e um bom portfólio, esses não são argumentos decisivos. O contratante está interessado em contar com pessoas não apenas competentes, mas também confiáveis – e isso depende de características pessoais que não aparecem em currículos e portfólios. Só podem ser constatadas pelo convívio ou endossadas pela opinião de conhecidos em comum.

Em 1998, antes de me mudar de Florianópolis para São Paulo, eu estava editando uma revista que acabara de ser lançada, a Jovem Empreendedor. Apareceu na redação, à procura de frilas, uma jornalista na faixa dos 30 anos que havia chegado alguns meses antes de São Paulo. Dizia já ter trabalhado em veículos importantes – e de fato carregava um portfólio com suas matérias.

Como eu já tinha montado meu modesto time de dois ou três colaboradores, não havia trabalho que eu pudesse passar para ela naquele momento. Mesmo que precisasse de mais um frila, havia muita gente da minha confiança na fila. Diante da recusa, a moça começou a reclamar do provincianismo do mercado local, onde pessoas com “um currículo como o dela” eram preteridas por critérios de amizade e não de competência. “Vou voltar para São Paulo, porque lá o profissionalismo é valorizado”, disse, bufando de raiva.

Eu não tinha a menor culpa do erro estratégico cometido pela colega. Ela imaginou que seu currículo lhe asseguraria a sobrevivência em qualquer lugar do país que escolhesse para viver. O que nos possibilita fazer isso, na verdade, são os contatos que carregamos na bagagem.

E ninguém pode negar que a grande fonte de bons frilas para jornalistas, aqui no Brasil, é São Paulo. Trata-se do mercado mais profissional e que proporciona a remuneração mais justa – nesse sentido, a colega estava totalmente correta quando anunciou o retorno à capital paulista.

Tão difícil quanto se estabelecer como freelancer em uma cidade onde não se conhece ninguém é tentar ser incluído no circuito dos bons frilas sem ter tido uma experiência in loco na maior cidade do país.

Não é impossível, mas exige esforço. Há casos de sucesso como o de Cândida Silva, hoje proprietária da agência Darana Comunicação, em Salvador. Quando atuava como freelancer, ela ia a São Paulo especialmente para visitar redações. Estabelecia contatos promissores e conseguia até voltar com pautas encomendadas.

Quem não tem muitos contatos e ainda assim pretende se estabelecer como frila não tem mesmo alter nativa a não ser bater de porta em porta. Pessoalmente, de preferência – telefonar ou mandar um e-mail com currículo não costuma funcionar. “A empatia que pode surgir de um contato pessoal é decisiva”, diz Cândida.

Persistência e humildade são as virtudes fundamentais nesse processo. Indo diretamente às redações é possível encontrar quem decida dar oportunidade a um desconhecido, mas não se deve esperar frilas maravilhosos no começo. As tarefas que costumam ser repassadas nessas circunstâncias não são das mais atraentes – é possível até que já tenha sido recusada por outros.

A fotógrafa Fabrizia Granatieri tornou-se freelancer da IstoÉ depois de simplesmente ligar para o telefone geral da redação, que encontrou no expediente da revista. Pediu para falar com um dos editores, perguntou se podia apresentar o portifólio e combinou uma visita. Viajou do Rio a São Paulo especialmente para o encontro. Foi então encaminhada para uma conversa com o chefe de redação da sucursal do Rio. Graças ao empenho, Fabrizia conseguiu entrar na lista dos colaboradores da publicação, para a qual realizou tarefas com regularidade durante dois anos.

Quem está pressionado pelas contas e não tem muito tempo para investir em contatos pode se ver obrigado a aceitar qualquer trabalho que apareça, e nesse caso os riscos são maiores. Em 2004, o catarinense Alessandro Bonassoli decidiu se mudar para São Paulo e, como um trabalho fixo não apareceu tão rápido quanto esperado, ele saiu à procura de frilas. Cadastrou-se em um grande site de currículos e foi procurado por um jornal especializado em cobertura jurídica.

Chegando à sede da publicação, que tinha como proposta “revelar os meandros do poder judiciário”, Alessandro soube que se tratava de uma espécie de contrato de risco: ele teria que percorrer os fóruns do interior e apurar as pautas que fosse encontrando pelo caminho. Os custos de deslocamento seriam ressarcidos e haveria mais R$ 100 por matéria aproveitada. Não parecia tão ruim: se produzisse duas matérias por dia, de segunda a sexta, ele asseguraria um rendimento mensal de R$ 4 mil.

Seria preciso fazer também fotos, com a máquina do jornal. Alessandro foi mandado para a região de Presidente Prudente. As mais de cinco horas de ônibus foram suficientes para aprender a lidar com a máquina e constatar que nela estavam arquivadas fotos um tanto instigantes da editora que o havia contratado. O alarme de “roubada” disparou de vez durante o longo chá de espera ao qual ele foi submetido pelo primeiro magistrado da lista de contatos.

Alessandro percorreu sete cidades e foi constatando, em cada uma delas, que as pautas não eram assim tantas quanto ele imaginava. Na verdade, dava no máximo para fazer um apanhado geral das atividades de cada fórum. Ainda assim voltou com nove matérias, e todas foram aproveitadas pelo jornal. Mas só conseguiu receber por duas. Insistiu durante seis meses para receber os R$ 700 restantes, mas não conseguiu.

Muitos jovens recém-formados de todo o Brasil se mudam a cada ano para São Paulo para tentar a sorte. Alguns se dão bem, outros não. Isso depende de uma série de fatores. Por experiência própria, acho válido trabalhar alguns anos em um mercado menor e chegar à metrópole já com certa bagagem e experiência de vida. Mas não há regra, claro.

Quando eu me tornei freelancer, estava com 31 anos e podia ao menos falar a quem não me conhecia que havia trabalhado na Gazeta Mercantil e na Veja, duas publicações reconhecidas como boas formadoras de mão de obra. Hoje ficou ainda mais fácil usar o currículo como argumento, pois nos últimos sete anos escrevi para publicações como Exame, Você S/A, Valor Econômico, O Estado de S. Paulo, vip, Superinteressante e Horizonte Geográfico. Mesmo assim, uma lista de publicações para as quais já se colaborou não garante nada por si só.

Depois de algum tempo como freelancer, a tendência é estabelecer alguns relacionamentos sólidos, o que assegura trabalho suficiente e nos leva ao risco da acomodação. Sempre me preocupei em abrir frentes inéditas de trabalho, para testar novas possibilidades e enriquecer o currículo. Não se trata mais de atirar para todos os lados, como no começo da trajetória de frila. Nessa fase mais madura de prospecção, podem-se selecionar os veículos por afinidade e sugerir pautas sobre temas de real interesse.

Publiquei, por exemplo, algumas matérias no site Nominimo. Eu era fã como leitor e foi um prazer ver o meu nome entre o excelente time de colaboradores. Depois de algumas tentativas de vender uma pauta, finalmente emplaquei o primeiro texto, sobre os “fantasmas” da ilha de Anhatomirim, nas proximidades de Florianópolis, palco de dezenas de fuzilamentos durante a Revolta da Armada, no final do século XIX – sempre gostei de temas históricos, a ponto de ter feito mestrado em História. Foi um típico caso em que o agradável se uniu ao útil, pois fui surpreendido por uma remuneração acima da expectativa. Diante disso, vivia sugerindo novos temas. Não era fácil emplacar pautas lá e eu ficava um bocado orgulhoso quando os editores aceitavam uma das minhas sugestões.

Já para a Caros Amigos, outra publicação que eu admirava, escrevi em abril de 2007 um texto pelo qual não cobrei um tostão sequer – sobre o centenário de nascimento do flautista Patápio Silva, de quem escrevi a biografia durante o mestrado em História. Era meu reconhecimento à atenção que o editor-chefe Sérgio de Souza, um dos grandes nomes da história do jornalismo brasileiro, havia me dado sete anos antes, quando cheguei a São Paulo e decidi visitar algumas redações para me apresentar. O Sérgio, que sempre teve dificuldades para manter o projeto, morreu menos de um ano depois, em março de 2008.

Não se pode ganhar todas, no entanto. Nunca consegui me aproximar da Bravo! e logo que a revista Piauí foi lançada tentei durante algumas edições emplacar uma pauta, mas não consegui – mesmo nos casos em que achei que a sugestão tinha tudo a ver com o perfil da revista.

Houve também situações em que a nova frente chegou a ser aberta, mas o relacionamento não evoluiu além da primeira matéria. Ou foi satisfatório na primeira experiência e decepcionante na segunda. Perfeitamente normal: assim como muitas paqueras terminam no primeiro beijo, nem toda parceria de um freelancer precisa se transformar em casamento.

Uma das situações mais irritantes quando se está tentando vender uma pauta é a demora das pessoas contatadas em responder se querem ou não a matéria. Se um determinado veículo não se interessa, outro pode se interessar – mas só a partir da recusa oficial do primeiro pode-se entrar em contato com o segundo. Quando um editor age assim, tenho certeza de que nunca trabalhou como freelancer.

Sempre fica mais fácil vender um material já pronto, e não apenas uma promessa de matéria. José Eduardo Barella, editor de Internacional do jornal O Estado de S. Paulo, diz que é frequentemente procurado por jornalistas que viajam pelos destinos mais incomuns e sugerem pautas. “Gostamos de oferecer ao nosso leitor um olhar brasileiro sobre lugares exóticos, mas deixo claro que não há comprometimento de publicação antes de analisar o material”, descreve.


Maurício Oliveira é jornalista formado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com mestrado em História pela mesma instituição. Trabalhou durante dez anos como repórter de jornais e revistas, incluindo Gazeta Mercantil e Veja. Em 2003, ano em que realizou o sonho de voltar a viver em Florianópolis, passou a atuar como freelancer. Desde então, tem contribuído para diversas publicações, incluindo ExameSuperinteressanteVIPValor EconômicoO Estado de S. Paulo e Horizonte Geográfico. Também presta serviços para editoras de livros e agências de publicidade. Pela Contexto, publicou Manual do frila: o jornalista fora da redação e Amores proibidos na História do Brasil.