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A São Paulo imaginária de Diva Pinho | José de Souza Martins

Publicado em Valor Econômico [Caderno Eu& Fim de Semana, p. 6-7], São Paulo, Sexta-feira, 21 de outubro de 2005.


Artista plástica vê por nós e nos mostra o que não conseguimos ver: o belo que se esconde por trás da metrópole.

Diva Pinho: “Contrastes urbanos I”

São Paulo tem todas as feiúras das grandes cidades do mundo inteiro. Tem também suas belezas, raramente notadas na pressa do transeunte, na irritação da vítima do caos urbano, na falta de tempo dos apressados. Sou de uma geração que tem consciência de ter perdido a visão da cidade como um todo articulado, harmônico e belo. No último meio século, a cidade se decompôs, reduzindo-se progressivamente a meros detalhes mal notados. Às vezes tenho a impressão de que a cidade de São Paulo é uma das cidades mais mal amadas do planeta por seus próprios habitantes. Pichações sem sentido nos mostram isso todo o tempo. Nelas está embutido um claro fascismo visual, como se vê nas raras palavras com algum sentido, proclamações de prepotência e poder, o poder do particular destruir o que é de todos. Sobretudo porque é de todos a composição visual de cores e formas que une o conjunto disperso e aparentemente desarticulado, a composição que nos alerta para o fato de que, apesar de tudo, a cidade é uma obra de arte.

Quem nos lembra disso é Diva Benevides Pinho, que foi minha professora de Economia Política, quando a Economia era política e se voltava para as questões sociais, no curso de Ciências Sociais da Faculdade Filosofia da Universidade de São Paulo, lá por 1961. Ela já era, então, devotada defensora do cooperativismo como forma de economia social, junto com o professor Teodoro Maurer. Graças, justamente, ao pequeno movimento cooperativista que eles lideravam na Faculdade, tivemos durante anos a nossa cooperativa de livros, acolhida numa pequena e movimentada sala do prédio da escola na rua Maria Antônia.

Diva Benevides Pinho nos mostra o belo lado escondido de São Paulo em Poéticas e Metáforas [Ápex, São Paulo, 2005] que, com textos dela e de Daysi Peccinini, reproduz vários de seus quadros e nos oferece um panorama de sua trajetória artística. A cidade não é seu único tema, mas é o principal, o cume de um quarto de século de pintura documentado no livro. A diversidade de temas nas pinturas de Diva Pinho vem do diálogo com seu trabalho acadêmico, uma interlocução rara no artista, que geralmente é uma coisa ou outra.

Diva Pinho, nas suas pinturas ainda figurativas de inspiração impressionista, dos anos oitenta, quando também trabalhava com temas rurais, pintou cenas de bóias-frias a caminho do trabalho. Provavelmente, ela é a única artista a ter consagrado na pintura contemporânea, em belos quadros, a figura humana dos trabalhadores marginalizados pela decadência do colonato nas fazendas de café. Retoma uma tradição que nos leva ao início do século 20, com o italiano Antonio Ferrigno pintando cenas de trabalho rural nos cafezais de São Paulo, no curto período de tempo em que aqui viveu antes de retornar à Itália. Com a diferença de que o trabalhador das pinturas de Ferrigno é mero apêndice da esplendorosa paisagem de cafezais sem fim. O café é o sujeito. Diva Pinho põe o trabalhador volante no centro da pintura, como o sujeito de sua arte dessa fase, como também fez com as mulheres de diferentes categorias sociais: educadoras, jovens mães, mulheres executivas. A pintura de Diva Pinho nos revela sujeitos sociais sem a intenção demagógica da denúncia e do panfletarismo visual. Sua arte é a arte da descoberta de cores, formas e conteúdos humanos, conflito da artista com as ocultações das definições estereotipadas do que somos.

É compreensível que nos textos da artista, que acompanham as reproduções de seus quadros, a escrita esteja numa relação de forte tensão com sua pintura. A escrita do pesquisador não tem como não se prender às factualidades incômodas do real, a uma certa necessidade de expor contradições. Isso acontece com o fotógrafo Sebastião Salgado, cujo discurso público sobre o universo de sua fotografia procura anular a dimensão propriamente estética de sua bela obra em nome de um louvável compromisso com os pobres. Mas a pintura de Diva Pinho é uma verdadeira libertação da artista, uma explosão de sensibilidade e beleza que não nega a pesquisadora, o outro lado da personalidade da autora. Sua pintura sobrepassa o real, assume as dimensões ocultas e libertadoras das contradições desse real, uma revelação do belo saindo de dentro do que muitas vezes parece feio ou sem vida.

Essa dimensão de sua obra se dá a ver plenamente na sua celebração da metrópole. Sabemos que é São Paulo, seus lugares mais comuns: a Sé; os altos edifícios repetitivos na forma e na altura, mesmice acabrunhante da cidade que, envelhecida, perdeu a vaidade pelo batom, pelo ruge, pela aparência; ou a avenida Paulista numa noite de inverno de 2004. Mas sabemos também que não é a São Paulo cotidiana, da pressa, da desatenção. É a alma oculta de São Paulo que constitui o cerne de sua pintura dessa fase. Ela vê por nós e nos mostra o que não conseguimos ver. O belo que se esconde no diáfano azul das horas calmas da noite, como em “Avenida Paulista em uma noite de inverno” ou em “São Paulo à noite”. Ou na suave alegria colorida dos contrastes urbanos, a duplicidade urbana de São Paulo, a dupla identidade, na fratura exposta das favelas geminadas com bairros de classe média, falando de nossos impasses e de nossas insuficiências. “Contrastes urbanos I” é um dos mais belos e mais eloquentes retratos de São Paulo, uma visão provavelmente a partir do mezanino do Ceagesp, a favela de um lado, os edifícios de apartamento de outro e no meio, equilibrando historicamente a composição, o Pico do Jaraguá, que foi a primeira mina de ouro do Brasil, no século 16, escarafunchado pelo minerador Afonso Sardinha e por tantos outros nos séculos seguintes. Em “Catedral da Sé”, São Paulo adormece nos sobretons da névoa e da noite e nos convida a acariciá-la nos olhos e no coração.


José de Souza Martins, um dos mais importantes cientistas sociais do Brasil. Professor titular aposentado de Sociologia e professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). Pela Contexto, publicou os livros A sociabilidade do homem simples, Sociologia da fotografia e da imagem, Fronteira, O cativeiro da terra, A política do Brasil lúmpen e místico, A Sociologia como aventura, Uma Sociologia da vida cotidiana e Linchamentos.