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Vida urbana e saúde: os desafios dos habitantes das metrópoles | Paulo Saldiva

Este livro aborda a saúde da vida urbana e, portanto, fala também do ser humano. As cidades são hoje o habitat natural deste bípede, que cada vez mais está mudando para o ambiente construído, um novo ecossistema onde a natureza cede progressivamente espaço para a concretude do asfalto: 54% da população mundial é urbana. No Brasil, o número chega a impressionantes 84%. A maior parte do que consideramos como civilização foi construída pela força criativa do espírito humano, alimentado pela seiva vital composta pela troca e mistura de ideias, saberes, sonhos e utopias, renovados todos os dias no ambiente urbano. O Lógos (razão) e o Páthos (emoção) caminham de braços dados pelas ruas das cidades.

O encantamento da convivência humana, porém, habita o mesmo espaço do adoecer, provocado pela falta de saneamento, pela contagiosidade de moléstias que chegam por mosquitos, pela poluição do ar, pela violência e pela premência do viver moderno. Esse é o cenário de um conflito eterno a se arrastar pelos tempos: as delícias e os sofrimentos que convivem, em perfeito entendimento, nas cidades.

Sempre fui fascinado pelas cidades, especialmente São Paulo. Meu nome é Paulo, nascido em São Paulo em pleno Quarto Centenário (1954), no mesmo ano da morte de Oswald de Andrade. Naqueles tempos, São Paulo flertava com a ideia de ser uma cidade assemelhada a Nova York. A falta de planejamento, aliada a um crescimento explosivo, mudou o seu destino, criando um laboratório natural para o estudo das várias facetas de uma cidade desigual, intensa e fascinante. Nasci, vivi e envelheci acompanhando as mudanças de minha cidade. Fui cobaia e observador a um só tempo. Médico e asmático, comecei a estudar os efeitos da poluição do ar sobre o pulmão. Como patologista, tenho a dolorosa e trágica oportunidade de ler no interior dos corpos dos paulistanos os efeitos do viver a cidade de São Paulo, que pode até resultar na morte precoce.

A formação de médico patologista me fez também conceber a cidade como um ser vivo que, ao longo da vida, acumulou algumas doenças e disfunções. Sendo cada bairro um órgão e nós, seus habitantes, as células que constituem esses órgãos-bairro, coloco-me na zona de conforto que me permite analisar o tecido urbano sob a óptica de um microscópio. Os diagnósticos são variados. Obesidade é um deles. A cidade cresceu mais do que o seu esqueleto e as articulações podem suportar, vergando-se ao excesso de peso e de prédios. Calvície, representada pela expressiva destruição da sua cobertura vegetal, é outro achado importante. Importante também é a bronquite crônica, resultado de anos de inalação de um ar poluído, assim como a insuficiência renal, definida como a incapacidade de excretar os resíduos de forma adequada e eficiente. Ressaltam-se nessa área, igualmente, episódios de diarreia a contaminar os rios que banham o corpo do paciente. Ao utilizar de forma pouco eficiente a energia, confirmamos o diagnóstico de diabetes provocado pelo desperdício de glicose, petróleo e eletricidade. Episódios de hemorragia sangram os vasos internos, nos quais se perde a água vital para o funcionamento do corpo, caracterizando anemia. A redução do fluxo de suas artérias viárias, entupidas por trombos congestionados, define o quadro de trombose e insuficiência cardiocirculatória. Por vezes, o paciente apresenta episódios de edema e inundações quando exposto à chuva. De forma mais íntima, pode-se acrescentar o diagnóstico de impotência para fazer as políticas certas. Finalmente, observamos o mal de Alzheimer político, dado que os neurônios dirigentes esquecem rapidamente os compromissos assumidos, na certeza de que o quadro clínico exposto não irá se deteriorar substancialmente até as próximas eleições.

A saúde urbana deveria ser, enfim, pauta urgente para todos que vivem em cidades. A cidade nos adoece? Por quê? Quais são as principais doenças? Como elas nos atingem? O que fazer para ter boa qualidade de vida em grandes cidades? Assim como o médico deve pensar na saúde dos seus pacientes – e não apenas em tratar determinada doença –, uma cidade saudável é aquela em que seus cidadãos têm boa qualidade de vida. Nas páginas que se seguem, abordo, primeiro, o início das cidades e a biologia urbana. Em seguida, analiso doenças onipresentes em nossos espaços, como obesidade, ansiedade, infecções. Depois disso, discorro sobre problemas tipicamente urbanos e como eles atingem em cheio nossa saúde: imobilidade (e poluição), ilhas de calor e violência.

Por ser paulistano, peço licença aos leitores para utilizar muitas vezes São Paulo como exemplo, pois na minha cidade consolidei a visão de que a ecologia urbana deve ser incorporada aos valores fundamentais dos Direitos Humanos. São Paulo, pela sua complexidade, pode ser entendida como um laboratório natural para o estudo dos problemas da urbanidade e sua relação com o viver humano. Nesse laboratório, podem ser testadas medidas voltadas para a melhoria da qualidade de vida nas metrópoles, passíveis de serem estendidas a outras cidades que compartilhem a mesma complexidade e vitalidade.


Paulo Saldiva, médico patologista, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, com pesquisas em doenças respiratórias, patologia ambiental e antropologia médica. Ciclista por vocação, gaitista por superação e esforço, é apaixonado por São Paulo.